Passarão e passarinho [Luís Giffoni]

Posted on 28/11/2015

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Luís Giffoni*

A diversidade (de raças, de adaptação a ambientes, de crenças, de costumes, de culturas) é a grande responsável pelo êxito humano, êxito que nos deixa orgulhosos até nos autoproclamarmos ápice da evolução, os pontos alfa e ômega, topo da cadeia alimentar e títulos afins. Essa mania de grandeza vem de longe, de milênios atrás, como atesta o filósofo Protágoras, para quem o ser humano é a medida de todas as coisas. Conheço um mineiro que se julga Napoleão. Todos afirmam que ele sofre de sérios distúrbios mentais. Não haveria essa mania de grandeza contaminado o Homo sapiens desde Protágoras, embora nos consideremos normais? Cadê o hospital psiquiátrico para a internação geral da nossa espécie?

Dois bem-te-vis me provocaram essas reflexões. Construíram o ninho em frente à minha janela, estão criando os filhotes, cantam satisfeitos da madrugada ao anoitecer e, até onde percebo, não filosofam, não poluem, não sofrem no trânsito, não frequentam psicanalistas, não fazem declarações de renda, não matam para conquistar territórios, não praticam atos terroristas, não bombardeiam inocentes, apesar do nome que lhes demos na classificação ornitológica: tiranídeos. Estamos precisando de tiranos assim. Por que ninguém se julga bem-te-vi, em vez de Napoleão? Que eu saiba, apenas o poeta Mario Quintana se julgou passarinho. E nos faz voar em seus versos:

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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