As mentiras que o Verissimo conta

Posted on 24/11/2015

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Se há um gênero que se ocupa do embaraço é a crônica. Aquelas pequenas situações constrangedoras do dia-a-dia e que nos colocam em apuros diante do julgamento alheio. Distanciadas pelo tempo ou pelo simples fato de não terem acontecido conosco, essas situações são importante matéria-prima para o cronista que pretende divertir os seus leitores. E se há um cronista em nossos dias que se tornou mestre nesse tipo de relato é o Luis Fernando Verissimo. É por conseguir nos revelar como somos realmente, sem as máscaras que a tanto custo tentamos manter, que se explica grande parte do seu sucesso literário. Não admira que ele tenha feito outro livro com o tema da mentira – que é, afinal, o caminho mais rápido pelo qual nos livramos de circunstâncias embaraçosas.

Ah, e nós mentimos, como nós mentimos. Ainda que agora o recorte do cronista privilegie mentiras contadas por mulheres, não há nelas motivações muito diferentes daquelas que compuseram a sua coletânea masculina. Em “As mentiras que as mulheres contam” (Objetiva) mente-se para impressionar, mente-se para manter um relacionamento, mente-se para se vingar, mente-se até para não passar por mentiroso. E a coisa começa muito cedo, desde a mentira inaugural, aquela do “olha o aviãozinho”, que a mãe diz para o filho ainda bebê.

Mas não se espere do livro de Verissimo aquelas mentiras óbvias que são atribuídas à mulher, como diminuir a sua própria idade: em suas crônicas, há mulheres que mentem para aumentar a idade, e tem lá suas razões para isso. O absurdo, nessas crônicas de Verissimo, é um caminho possível se as mentiras forem levadas às últimas consequências. E por vezes elas são mesmo. Muitas vezes perde-se o controle de uma mentira e o resultado não é dos mais agradáveis. Aliás, mais do que ao falar das mentiras dos homens, neste livro são muitos os finais trágicos, e pode-se até falar em certo humor tétrico do autor.

Também é interessante observar o que o livro tem a dizer a respeito das novas formas em que se dá o relacionamento entre homem e mulher. Nesse quesito chamam a atenção crônicas bastante criativas, como aquela em que o cronista relata um encontro entre as antigas heroínas dos contos de fadas, ou aquela em que dois homens, cansados de suas esposas, procuram uma casa suspeita onde as mulheres não fumam, não falam palavrão, ruborizam e só deixam beijar depois de um mês.

De resto, o livro permite muitas risadas, e nem se poderia esperar outra coisa diante de tal profusão de mal-entendidos a que o cronista se dedica. Quando se ocupou do sexo masculino, Verissimo chegou a dizer que “só o vexame é autêntico no homem”. Por esse novo livro, talvez possa se falar efetivamente em igualdade dos sexos.

Henrique Fendrich

asmentiras

As mentiras que as mulheres contam – Luis Fernando Verissimo

Objetiva, 184 p., R$ 34,90

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