Caraça, um paraíso mineiro [Mariana Ianelli]

Posted on 21/11/2015

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Mariana Ianelli*

Padre Palú, que dirige o Santuário do Caraça, tem lá suas razões quando diz sem piedade que, depois de Henriqueta Lisboa e do Padre Sarneel, quem tenta explicar os mistérios do Caraça se expõe em vão. Porque muito já se escreveu sobre o Caraça e com profusão de detalhes. Mesmo o Padre Palú, que tem sua contribuição nesse repositório de poemas e histórias, é figura famosa no Santuário não só por suas homilias, também por seus dotes de fotógrafo amador da flora e da fauna do lugar, além de anfitrião meio ranheta dos que ali se hospedam sendo gente comum e pecadora. Resta escrever, afinal, sem pretensões de intimidade, como visitante de primeira viagem aberto a tudo, só com o afeto secreto da lembrança de um bisavô que ali estudou nos tempos áureos do Colégio do Caraça.

Dizem, e é verdade, que o Caraça, hoje centro de peregrinação, cultura e turismo, encarna um paraíso cercado de mineradoras por todos os lados. A devastação provocada há pouco mais de duas semanas pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, que empedrou o Rio Doce, extinguiu o distrito de Bento Rodrigues e mergulhou a cidade de Mariana num mar de lama tóxica, é um exemplo claro e fresco do perigo que significa para o Santuário essa devoração sem fim das montanhas de Minas Gerais pelos senhores do dinheiro e da hipocrisia.

Nesse paraíso por enquanto a salvo, patrimônio natural de Minas, vivem dezenas de pássaros ameaçados de extinção, mais de cem espécies de abelhas, mais de duzentas espécies de orquídeas e seiscentas espécies de besouros. No Caraça tem onça-parda, cachorro-do-mato, quati, tamanduá, pavão, jacuaçu, falcão-de-peito-laranja, águia chilena, tucano-de-bico-verde, rã assoviadeira, macaco-prego, bugio, mico-estrela e outras tantas vidas de um ecossistema de transição entre a mata atlântica e o cerrado, que, para continuarem vivendo, necessitam da preservação das áreas adjacentes à reserva natural do Caraça, como a Serra da Gandarela.

Tem ainda o protagonista das noites do Santuário, que há trinta anos vem comer da mão dos padres: o lobo-guará. Padre Palú, que toda noite chama o lobo, intimamente como a um cão, com uma bandeja de frutas e ossos de frango, queira aceitar a ironia da vida, pois também ele, nesse caso, se expõe em vão. Não há maior autoridade que a do lobo-guará quando seu corpo dourado sobe a escadaria de pedra até o adro da igreja, chegando do escuro da mata pela antiga entrada do Santuário do Caraça. É ele o autêntico místico solitário, o que conquista todo um auditório de fiéis com seu pelo refulgente, suas imensas orelhas felpudas e suas pernas e patas negras como que dentro de longas botas.

E os setenta mil visitantes por ano não vêm só por causa da elegância gótica da igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens, nem somente pelo místico lobo-guará ou pelas trilhas, mirantes, grutas e picos para atletas e pesquisadores que hoje seguem os rastros dos primeiros naturalistas europeus que por ali passaram, nos anos 1800, como Saint-Hilaire, Martius e Langsdorff. Antes de tudo isso, antes de todas essas grandezas, há o mais simples, que faz o segredo da disciplina do espaço e regula o relógio do corpo: as refeições, o sono e a oração. Entre o restaurante, o claustro e a igreja, o hóspede sente isto que Henriqueta Lisboa entendeu como um “conceito de vida”.

Nem é preciso subir a trilha até a capelinha do Coração de Jesus ou cumprir os seis quilômetros de mata quase fechada até a Cascatona para respirar a natureza. O visitante pode só passear pelo jardim do claustro, ver o relógio de sol, a cameleira que Henriqueta versejou, e então aproveitar para descer às catacumbas, que ficam debaixo da igreja, onde repousam, todos juntos, em silêncio sábio, padres, alunos e funcionários. Pode ainda o visitante espichar seu passeio até a horta, perto de onde vive seu Vicente, último descendente dos escravos que ainda mora no Caraça, ou conhecer as ruínas do velho Colégio, agora museu e acervo dos livros que restaram depois do incêndio de 1968, cerca de 15 mil volumes, com edições raras como a da Bíblia e a do “Paraíso Perdido” de Milton, ambas ilustradas por Gustave Doré.

Sendo minimamente curioso, o visitante descobrirá fotos de antigos alunos e padres, algumas extraídas do primeiro longa-metragem mineiro, “Porta do Céu”, de 1950, rodado no Caraça. Os rostos dos meninos naquele átimo da fotografia que fixa as expressões mais variadas, as compenetradas e as que fogem à obediência, de repente tristes, sombrias, espantadas. Um livro se escrevendo em cada rosto e, no momento da foto, o flagrante de uma página. São muitas histórias conhecidas e muitas mais por conhecer a partir dessas imagens. O ar irreverente do Padre Nilo, famoso por caçar cobras. O sorriso desdentado da negra Virgínia, cara de forte, mais que lúcida, íntima dos santos e dos lobos.

Drummond, que esteve no Caraça quando o Colégio ainda funcionava, na década de 1930, não esquece que também ali houve um tempo em que se abusou da palmatória. O rigorismo dos horários que antepunham ao café da manhã a oração, a missa e o estudo para a primeira aula, parece lastrear, na versão dos padres, um dos sucessos da história do Colégio, que é a celebridade de alguns de seus alunos na política, entre eles, dois presidentes da República (Afonso Pena e Arthur Bernardes), ministros de Estado, governadores, senadores, deputados.

Outro orgulho do Caraça, que tem a ver com seus mistérios, é seu histórico de milagres, como disse uma vez o Padre Sarneel, “milagres de alma”, vícios destronados por virtudes, renascimentos que não constam em nenhuma sala de graças alcançadas, pois que são assunto particular entre o agraciado e a Senhora Mãe dos Homens. Seu João, guia das trilhas que levam aos sete picos do Caraça, também sabe de mistérios e milagres acontecidos entre as rochas, como quando conduziu parentes das vítimas de um acidente aéreo, no Pico do Inficionado, em 1979, e no meio do caminho, entre as orações do grupo, um fio d’água serpeou por uma pedra seca.

Senão mistério, senão milagre, tudo no Caraça é de surpreender quem olha em volta. A imagem portuguesa da Senhora Mãe dos Homens, o corpo do mártir romano São Pio, os vitrais da igreja e duas telas do Mestre Ataíde: um retrato do padre Lourenço, fundador do Santuário, e a Santa Ceia. Sendo especialmente atento, o visitante que demorar os olhos pela Santa Ceia irá notar outro par de olhos cravados nele. Enquanto Jesus funda a liturgia do pão e do vinho, Judas, em primeiro plano, nos mira. Não são olhos culpados, nem o rosto se oculta, como o Judas de Antônio Francisco Lisboa, no Jardim dos Passos, em Congonhas. Na Ceia clara e colorida do marianense Ataíde, Judas, empunhando seu saquinho de moedas, fita o espectador com um olhar sabedor de muitas coisas, muitas culpas além da sua, um olhar cúmplice do nosso, meio irônico. Mais um segredo do Santuário do Caraça. E que ninguém ouse sondá-lo, diria o carrancudo Padre Palú.

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Vista da ala antiga do edifício do Caraça e da igreja Nossa Senhora Mãe dos Homens

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Cameleira e relógio de sol (ao centro) no claustro do Santuário 

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Lobo-guará em visita noturna ao adro da igreja

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Perfil de pedra do “gigante” que deu nome à Serra e ao Santuário do Caraça

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