O besouro [Elyandria Silva]

Posted on 19/11/2015

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Elyandria Silva*

Acordamos. Os dois. Eu, dentro, ele fora, de casa. Eu, virada para baixo, ele, virado para cima. E toda aquela aguaria que caía do céu, riscando o ar de tudo quanto é lugar, num gozo ininterrupto, causando apreensão aqui e ali, até onde não tinha rio. A chuva não dava trégua nenhum minuto sequer. A correria era intensa, e foi no entra e sai, no vai e volta, nos olhares apressados e intermitentes no relógio que o vi pela primeira vez. Atrás do grande vaso branco vitoriano o besouro se debatia, com as pernas para cima. Indiferente, entrei porta adentro esbaforida, sempre carregando algo: compras de supermercado, material de aula, livros, sacolas…

No passado, quando adolescente, tinha pavor daquele tipo de besouro. Grande, preto, quatro pernas e um pequeno chifre na cabeça. Talvez fosse inofensivo. Voava aleatoriamente fazendo um zunido assustador, nos perseguindo, enquanto fugíamos correndo, aos gritos. Certo dia pousou e se emaranhou nos meus cabelos levando-me  a um surto psicótico de correr, gritar, se jogar contra o que fosse sólido, sacudindo os cabelos, na tentativa de fazê-lo voar para longe. Segundos depois desabei no chão, de joelhos, pálida e suando, com todos rindo ao redor.

Enquanto enfiava a chave na fechadura olhei-o de canto, mexendo as perninhas para cima, tentando lembrar, do que estudei na escola, qual era a real função de besouros na natureza. No segundo dia qual não foi a surpresa ao avistá-lo, do mesmo jeito, no mesmo lugar, de ponta cabeça, balançando as pernas. Àquela altura já estava certa que o ajudaria, que faria a boa ação do dia virando o besouro para cima. O besouro se equilibraria, recuperaria seu poder e sairia voando pelo jardim. Tarefas domésticas me distraíram a ponto de esquecer que entrei em casa em busca de algum objeto com o qual pudesse virar o besouro.

Terceiro dia. Saio para compromissos e, milagrosamente, o besouro ainda está lá! Sobreviveu, três dias seguidos do mesmo jeito, na mesma posição. Senti-me uma torturadora, assassina, ruim, com a consciência pesada corri em busca de uma folha de papel. Finalmente, virei o besouro para cima e permaneci acompanhando. Ele caminhou lentamente, estava um pouco tonto. Certa de sua recuperação, segui para o compromisso. Pensei nele enquanto dirigia, em sua fragilidade perante o grande, perante o ser humano. O alívio da salvação da vida.

Tempos depois, quando chego, ele está, novamente, virado para cima, mas sem mexer as pernas. Atordoada, sinto toda a culpa de não ter ficado o tempo suficiente para vê-lo se recuperar totalmente e voar. Pego a folha de papel, está parado, quieto, não se mexe. Morreu, pensei. Senti toda a tristeza de sua morte, mais uma vez, a culpa. Porque não o virei no primeiro dia? Era a responsável pela morte de um besouro. Com tanta gente ruim no mundo porque me tornei mais uma? Mesmo assim coloquei-o em pé. Observei mais um pouco, nada. Entrei.

Quarto dia. O incômodo de sair na porta e olhar o besouro morto, por minha culpa. Ele não estava mais onde o deixei na noite anterior. Seu canto de morada dos últimos dias estava vazio.

Há um conforto em pensar que ele dormiu, acordou, ficou bem e voou. Há um conforto em pensar que, depois de tantos dias agonizando, ainda deu tempo e ele viveu. Nunca é tarde para se fazer aquilo que há tempo se posterga, com desculpas esfarrapadas.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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