Na Rua das Laranjeiras [Daniel Cariello]

Posted on 19/11/2015

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Daniel Cariello*

Na Rua das Laranjeiras tem o Mercado São José, um lugar cheio de bares e restaurantes que não tem nada de mercado. Não adianta passar ali de manhã, você não vai encontrar frutas, verduras ou ervas, carne de vaca, de porco, de frango ou peixe, tapioca, queijo ou café, temperos, pimentas ou flores. Exceção feita aos dias em que fica um senhor português na porta, vendendo legumes geralmente murchos.

Na Rua das Laranjeiras tem o Instituto Nacional de Educação de Surdos, um lindo prédio antigo localizado em um dos seus pontos mais movimentados, em frente a um sinal e uma bifurcação, com constantes engarrafamentos e buzinas se sobrepondo umas às outras, causando um barulho infernal que, ouvi dizer, não atrapalha as aulas.

Na Rua das Laranjeiras tem uma loja de suco cujos proprietários são chineses que não falam direito português quando você pede pra trocar o tomate do sanduíche por mais queijo, mas tornam-se incrivelmente fluentes na hora de apresentar a conta.

Na Rua das Laranjeiras tem uma nova ciclovia que os ciclistas muitas vezes não podem usar porque está bloqueada por algum carro que estacionou ali só pra ir à farmácia, coisa rápida, nem tá atrapalhando, veja bem.

Na Rua das Laranjeiras tem bancas de jornais e revistas que vendem suco, refrigerante, pipoca, chocolate, amendoim, chiclete, salgado, sorvete, capa de chuva, cigarro, chinelo Havaianas, chip de celular e cada vez menos jornais e revistas.

Na Rua das Laranjeiras tem uma churrascaria instalada em um casarão antigo que nas noites de fim de semana serve cantores passados e grupos requentados, acompanhados de chope.

Na Rua das Laranjeiras, bem no início, tem o Largo do Machado. Uma praça larga, é verdade, mas onde nunca vi alguém segurando um machado. Aliás, se visse, mudava de calçada e ia pra longe da Rua das Laranjeiras.

Na Rua das Laranjeiras não tem pé de laranja. Nenhum.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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