Estrelas do Tubarão [Domingos Pellegrini]

Posted on 16/11/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

Primeira vez que vi “futebol de camisa” foi no Estádio Vitorino Gonçalves Dias, depois de sair da vesperal do Cine Londrina, o jogo já estava no segundo tempo e o portão aberto. Procurei meu pai na arquibancada, só fui achar no barranco, onde ficavam os que chegavam atrasados como ele, barbeiro que trabalhava no sábado desde cedinho até o meio da tarde. Então vi aquele homem, sempre contido e sereno, pular de alegria e quase despencar do barranco quando o Londrina Esporte Clube  fez gol.

Ele decerto ficaria muito feliz ao ver nosso time hoje. Elogio sincero e merecido, diz Dalva, é a vitamina da alma, e o LEC merece elogios.

Primeiro, por contar com um gestor como Sérgio Malucelli, dedicado e rigoroso, que sabe conceder e sabe cobrar sempre que é preciso. A quem diz que ele só quer ganhar dinheiro, digo tomara que ganhe bastante, se em troca continuar nos oferecendo um time competitivo, com centro de treinamento digno e direção profissional. O lucro é uma das maiores invenções humanas, e a cidade também tem lucrado com o Tubarão nos dando orgulho e auto-estima. Londrina tem estrelas na bandeira e nosso maior patrimônio, desde o tempo em que se chamava Patrimônio Três Bocas, é o alto astral.

Elogiável também é o Cláudio Tencatti, não só por ser o técnico que se mantém há mais tempo no futebol nacional, mas principalmente por sua postura ao mesmo tempo apaixonada e profissional. Não fala de si mesmo nem fala besteira. Não faz gracinha. Está sempre focado no time e no próximo jogo. Se um dia deixar Londrina, deixará muita saudade e muito exemplo.

Estive no Estádio do Café quando o Londrina ganhou a Taça de Prata. O Jabá liderava a batucada na arquibancada, com instrumentos da então Ametur, autarquia de esportes e turismo, e, depois do jogo, temeu que na comemoração os instrumentos sumissem. Disse que ia ter churrasco lá no Ginásio Moringão para o pessoal da batucada, então entramos no ônibus e fomos para lá, devolvemos os instrumentos direitinho, para saber que o tal churrasco era balela. Mas não ficamos chateados, fomos até o Bar do Tio Mário berrando Londrinão, Londrinão, antecipando na rima o apelido Tubarão, que surgiria da torcida alguns anos depois, motivado por filme do gênio Steven Spielberg.

Apesar do apelido evocar violência, também é elogiável o comportamento da torcida nos últimos jogos no Café. Nenhum incidente policial. Minha filha vai tranqüila com meu neto e eu sei que voltarão seguros e felizes.

E eis que, no final do jogo, o narrador diz na tevê que o LEC é o único time sem dívidas no país! Então parabéns, Tubarão, não só pelo futebol, mas por podermos desde já sentir que, mesmo que volte derrotado do Serra Dourada, já é nosso  campeão quatro estrelas: em dignidade, empenho, estabilidade e superação, coisas de que o Brasil tanto precisa.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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