Feliz para mais de metro [Rubem Penz]

Posted on 13/11/2015

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Rubem Penz*

Costumo dizer que a denominada hard News (perdão pelo estrangeirismo) torna-se cada vez mais uma commodities (ih, outro…). Grandes agências negociam conteúdo pelo mundo e, quando vemos, um jornal de Cacimbinhas apresenta um fato com o mesmo tom de outro em São Paulo, Buenos Aires ou Londres. Talvez já fosse assim havia mais tempo. Mas, agora, isso se apresenta diante de nós pela via digital, gritando sua padronização – o que pode ser letal para o jornalismo. Ou, por outro lado, sinal de saúde e longevidade.

Quando seria letal? Ao nos depararmos com direção e editores incapazes de montar uma equipe variada nas páginas de seus diários, mesclando boas seções alimentadas por agências de notícias, nomes nacionais com bom peso e talentos locais – estes últimos com a capacidade de nunca destoar do restante. A vida longa, é claro, nasce com a capacidade de escolher o time com competência.

Numa metáfora grosseira, ainda que ilustrativa, pode ser algo como planejar uma praça de alimentação de shopping (essa palavra ainda é estrangeirismo?). Nela, um McDonald’s, duas ou três franquias nacionais de lanches e quatro ou cinco portas locais, bem ao gosto particular da região. Nenhum turista consciente entra no “Méqui” (hard News) para conhecer a culinária da cidade. Porém, um “Número 1” por perto deixa as demais opções gastronômicas com a obrigação de respeitar necessários padrões de qualidade.

Utilizando a imagem da janela, o jornal de qualquer lugar precisa oferecer uma visão clara do que se passa lá fora, além muros. Ao mesmo tempo, deve ter a capacidade de se colocar numa posição cosmopolita ao mirar para dentro da cidade, avaliando a paisagem interna com o necessário distanciamento crítico. Para concluir, contemplar o próximo-distante (País, Estado e região). Parece fácil. Não é. E o maior problema é justamente aquele que impacta a capilaridade jornalística: a referência nacional (ou, no mínimo regional) e o talento local. O jornalismo McDonald’s jamais será um diferencial competitivo. O bom tempero local, sim.

Falo disso por causa de uma feliz efeméride: o Metro Jornal Porto Alegre acaba de completar 1000 edições dando claro sinal de acolhimento e prestígio na capital dos pampas. Um gaúcho que conhece os pagos (e os costumes locais) poderia facilmente apostar em narizes torcidos. O que? Um título europeu trazido para o Brasil por um grupo empresarial paulista? Muito arriscado! Todavia, está na gênese do Metro o equilíbrio entre fatos distantes e próximos – com ênfase no local. Uma equipe enxuta e dinâmica, amparada por editorias nas principais cidades do país e do mundo, mostra Porto Alegre para si mesma como se fosse Madri, Lisboa ou Rio de Janeiro.

Num tempo em que a informação plural e de qualidade sofre pressões de todos os lados, quando muitas carreiras tradicionais (como a do jornalismo) estão em xeque, no auge da tempestade digital, felicitar a saúde de uma publicação impressa é, definitivamente, uma boa notícia. Aliás, boa para mais de metro!

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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