Sobre bicicletas e dinossauros

Posted on 12/11/2015

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Daniel Cariello

Abraçamos a campanha ‪#‎AgoraÉQueSãoElas‬ e pedimos para a Mariana Carpanezzi escrever a crônica dessa semana. Mas ela foi além e fez também uma linda ilustração, que acompanha o texto.

Mariana conta da sua viagem pedalando sozinha pela Europa. A história vai virar livro no fim do ano, pelo selo Longe.

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Espalhando a bolsa da memória em cima da mesa, lembro de duas situações. Elas cabem na mão, pequenininhas, terrivelmente singelas e singelamente terríveis: as sementes da minha própria revolução.

O meu caso não foi de furacão arrebatador. Meu feminismo aconteceu mais sorrateiro, como estranhamento e descoberta. Para dizer de outro jeito: uma certa manhã, acordei de sonhos intranquilos e percebi que o que eu até então enxergava como a coisa mais normal do mundo não podia mais ser tratada como algo natural.

* * *

A primeira vez foi há dois anos, numa viagem de bicicleta pela Espanha. Dias viraram semanas, semanas viraram meses, todos os dias o sol nascendo e morrendo de um jeito diferente. Na estrada, entretanto, só mais do mesmo. Homens pedalando, homens cicloturistas, pelotões masculinos inteiros cruzando meu caminho em inevitáveis fiu-fius. Na imaginação deles, concluí, eu devia ser muitas personagens estranhas: uma alienígena, uma desvabradora, uma louca, uma Barbie em traje esporte. Sabe-se lá. É que, além de mim, não encontrei no caminho nenhuma outra ciclista mulher.

Meninos aprendem a jogar bola, meninas a brincar de boneca, mas todo mundo anda de bicicleta.

– Onde é que elas estão?

Um dia, a chuva engrossou e uma van parou para me dar carona. Sentada ao lado do motorista, assisti em câmera lenta as letras virando palavras, as palavras virando frases, e as frases virando uma mesma ideia. Ele pegava na minha perna, apertava minha coxa, me convidava para passar a noite com ele. A personagem que ele criava para si era algo assim: mulher viajando sozinha de bicicleta é sinônimo de liberdade, e liberdade é sinônimo de transar com desconhecidos.

Dei um grito, mandei ele parar. Pulei para fora da van e ouvi quando ele jogou bicicleta e bagagens para fora do carro. Montei tudo e continuei, pedalando com medo naquela região deserta, debaixo do temporal. Ele me seguiu por vinte minutos. Depois desapareceu no horizonte.

E então entendi, amei e fiz parte de todas as outras mulheres que não estavam na estrada. Daquele dia em diante, passei a detestar os fiu-fius ciclísticos e descolei uma canga para amarrar em volta da bermuda quando tinha que parar num boteco para tomar café. Olhares fixos na minha perna e na minha bunda passaram a me incomodar.

* * *

A segunda vez foi com o Marvin. A gente se conheceu naquela viagem, e há um ano começamos a namorar. Ele é alemão. No último setembro, viemos passar dois meses na casa dos pais deles, numa cidade pequena perto de Frankfurt. O verão se transformou em outono, a temperatura caiu, e um dia ele chegou em casa com um presente: um chapéu caríssimo, de lã pura. Preto com bolinhas vermelhas. Em forma de dinossauro.

M-e-u D-e-u-s d-o C-é-u, como adorei. Quis pular, sair gritando, correr que nem uma louca pela rua, desfilar minha novidade paleolítica diante da sociedade.

Um segundo depois, bateu uma vergonha. Uma repressão interna imprevisível: vesti o chapéu na frente dele e fiquei triste, meio sem querer.

– Ai… Mas com esse chapéu, Marvin, você não vai me achar sexy.
– E daí?, ele respondeu

Marvin e suas palavras mágicas: e daí? E daí se ele vai ou não vai me achar sexy? E daí pro sexy todo desse mundo? E daí? E daí?

Uma vida inteira, mais de trinta anos, sem perceber. Sempre tentar ser bonita, sempre tentar agradar, morrendo de medo do meu corpo, amarrando blusas nas cinturas todas da vida, escondendo pernas e bundas, abaixando o rosto de vergonha aos olhares insinuantes, mostrando pernas e bundas para a apreciação alheia, também. Todos os chapéus que nunca me dei o direito de usar. Tanto medo – sou feita de tanto medo e de tanta vergonha. Os assédios cotidianos são tão intermináveis que minha memória já não consegue saber onde começou e onde termina, nem até onde vai. Talvez, pode ser assim, os mais difíceis tenham sido apagados da minha lembrança, por questão de sobrevivência. Não lembro mais do primeiro. Já nem sei mais.

Tentei explicar pra ele tudo isso. Ele ficou quieto, depois respondeu:

– My love, this is so fucked up.

Depois me deu a mão, apertou forte. Abrimos a porta e saímos para rua.

Ele, de gorro azul.

Eu, linda-maravilhosa. De vestido de florzinha e chapéu de dinossauro.

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Mariana Carpanezzi estudou muitas coisas diferentes: yoga, direito, desenho e fotografia. Tem mestrado em relações internacionais pela UnB e trabalhou muitos anos com políticas públicas em direitos humanos no governo federal. Está de mudança para Brasília, onde vai lançar em dezembro o livro “O Mundo Sem Aneis – 100 insights em 100 dias de bicicleta”, pelo selo Longe! Contato: umarimari@gmail.com

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