Teatro de rua [Marco Antonio Martire]

Posted on 11/11/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

Faz bem quando a gente se deixa levar por um passeio, como disse aqui outro dia o colega de crônicas e amigo Alexandre Brandão. Eu andava no centro da cidade meio atordoado, umas questões impediam o meu bem-estar, estava tenso e a cabeça pesava. Caminhar era difícil mas pegar o ônibus parecia pior ainda.

Optei pelo metrô, decidido a saltar na praça do Largo do Machado e então andar a esmo, conferir o comércio, comer talvez uma esfiha naquele árabe ou beber talvez um chope em um bar desconhecido. A longa escada rolante da estação do metrô me levou à superfície sem que eu soubesse ainda por onde seguiria. Uma vez na praça fui dar uma volta.

Era sexta e uma aglomeração de pessoas se reunia lá em torno de dois alegres palhaços. É claro que eu parei para acompanhar o show. Não havia nada melhor a fazer com a tarde do que assistir ao espetáculo daqueles fabulosos artistas de rua.

Só quem já esteve em um palco, diante de uma platéia curiosa e entretida, hostil ou perturbada, sabe o que é preciso alimentar no coração para se meter em traje de bufão e sair contando piada uma atrás da outra, fazendo o povo rir. Aqueles dois palhaços eram minha salvação naquela tarde tensa, o teatro de rua corrigia meu dia e relaxava meu corpo, de um jeito simples que não tem nada de fácil.

Certamente aqueles dois artistas de rua dedicam sua vida ao teatro, para aquela arte importante, reverenciada pelas crianças, que riam e se divertiam longe das onipresentes telas, experimentando o essencial contato humano através de uma expressão muito viva e próxima. Talento. Talento no meio do povo e do abraço caloroso da gente. É uma arte para a qual se estuda muito, penso no tanto de trabalho e conhecimento por trás daquela maquiagem, daquelas roupas berrantes, daqueles gestos graciosos que nos tomam por cúmplices.

Não basta dizer que entende. Tem que sentir no peito enquanto se caminha na praça tenso como um cordão esticado, a cabeça pesada como uma bigorna. Só assim é possível bater palmas como as crianças, sorrir sem precisar teclar, sem que ninguém na rede tenha a mínima ideia do quanto a gente está se divertindo. Simplesmente rir, guiado pelas trapalhadas dos palhaços, esses mestres do mundo. E receber devolvida para si a tarde, antes perdida em função de preocupações tolas, que não valem um palito de fósforo aceso.

Eu sempre gostei de palhaços. Sempre gostei demais de mágicos, de trapezistas, de malabaristas. Tenho restrições aos domadores, aos atiradores de faca. Mas os palhaços são os reis.

Não foi à toa que contribuí para a estimada caixinha dos artistas. Era o mínimo, reconhecer a própria alegria, o corpo rindo, a paz devolvida ao coração. Mesmo os remediados como eu sabem o quanto vale o teatro de rua: vale um sorriso de gratidão.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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