Dia de Cecília [Mariana Ianelli]

Posted on 07/11/2015

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Mariana Ianelli*

Desde que houve Cecília Meireles neste mundo, continua a haver Cecília Meireles em nuvem de pensamento, em momentos desses que, por economia simbólica, fazem de conta que aniversariam todos hoje. Fazem de conta, só. Porque Cecília nasce nas quatro estações do tempo, em diferentes circunstâncias e continentes, como Sophia, como Vieira: em toda parte, para toda gente.

Há Cecília nos jardins e nos porões das casas que ainda resistem em pé, estranguladas entre os prédios aqui do bairro da Aclimação, casas com Nossa Senhora guardando a porta de entrada, luz de chama num alpendre, e, dentro, a outra luz, aquela rara, das claraboias. Há Cecília nas ruas de uma ainda viva Vila Rica, no patético inevitável de altos e baixos cheios de cruzes e cristos, resplendores e gargalheiras, santos e inconfidentes.

Nos bíblicos episódios de casa e nos episódicos evangelhos de rua, um sopro de Cecília. No ritmo da macumba da baiana, na ondulação das ancas do sambista. Numa alta janela sobre o Central Park ou numa janela com corvos em Bombaim. Entre passado e futuro, entre céus e muros, nas ruínas de Asquelon, de Nazaré, de Atenas, de Pompeia. Em desertos, palácios, templos e museus do Oriente ou num barquinho holandês de nome Cassiopeia. Nas igaras dos tamoios ou no canto da jandaia, brincando com as crianças de fazer dançar a língua, na visão de adormecidos vulcões mexicanos ou da glória de miseráveis com cara de Ramakrishna. Na visão disto e daquilo, um pouco dos olhos de Cecília.

É essa graça de olhar a lua sem veleidades de cientista, olhar a lua, um minuto que seja, com um rastro da veneração de antigas tribos. É essa graça de se saber hóspede, um hóspede de tudo nesta vida, com um nome cúmplice dos nomes já meio apagados nas campas, e se sentir, por isso, um pouco isento, um pouco livre de corpo, de tempo, e, quem sabe, até, livre de alegorias.

É, sem grande drama, alguém ir se despedindo do que ama, com um frescor de última vez, e já parecendo distante, quase alheio, transparente, ainda assim transitar entre dois tempos, entre noite e manhã, no fino fio do funâmbulo, com cuidado mas entrega, estudando sombras e auroras, escutando águas e pedras, buscando correspondência musical em línguas mortas, nas lendas, nos mitos.

Cecília nasce leve e densa num espelho de estrelas do mar quando o mar se acalma, nasce dos ventos que esculpem e apagam marcas, em vastidões de mirante e no fundo de catacumbas, nos cantos que espantam os males dos escravos, na escola humana da gente comum e anônima em que santos e anjos se infiltram. Cecília vigorosa no épico de cantar os tempos, Cecília azul e branda em noturnos e elegias, delicadamente dramática no perfil de caule penso das gueixas e baianas de seus desenhos, Cecília zelosa em suas crônicas de viajante, cidadã, filha dos dois lados do Atlântico, estudante empírica, poeta sempre.

É uma paz de saber quanto se lava por esquecimento. É certa compaixão pelos grandes reis da história vistos num espectro mais generoso de dez mil anos. É a pena que um cavalo sente de ter de arrastar um condenado ou é de repente o susto mudo de se ver como o único que ainda respira entre os bronzes de um museu. É o momento de ser pasto de música. É o labor discreto e irrefreável da semente na sua viagem da sombra para a luz. Nascimentos, passagens, momentos desses, de solidariedade e solidão, que podem acontecer hoje e qualquer dia, porque sempre, sempre é dia de Cecília.

cecilia

Desenho: Alfredo Aquino 

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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