Cambalhotas [Madô Martins]

Posted on 06/11/2015

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Às vezes, muitas vezes, me sinto como aquelas personagens de desenho animado ou quadrinhos (Charlie Brown, recruta Zero…) que dão cambalhotas, ao serem surpreendidas. Tenho dado muitas e, até agora, saído ilesa dos sustos. Ilesa, em termos. Alguns deixam uma dor danada do lado esquerdo do peito, outros, um cansaço que não passa por longos dias. Mas há, também, os que provocam inquietação, uma expectativa alegre, a boa sensação de que a vida sempre anda e alguns ditados lapidares expressam a pura verdade: não há bem que sempre dure nem mal que nunca termine, sussurra lá dentro um deles.

Recentemente, fui chamada de “mulher-sorriso”. E dei mais uma daquelas cambalhotas, ao perceber que voltara a sorrir, após tanto tempo com a boca engessada, movida apenas para palavras ressentidas ou as afirmações pragmáticas que o dia a dia exige. Agora, a cada momento noto que faço o caminho de volta para o que imagino ser. Voltei a cantar, a perceber coisas à volta antes embaçadas pela miopia da angústia, a gostar de ficar só e experimentar a paz que me acompanha nessas horas, a respeitar as próprias necessidades, a me preservar de sofrimentos desnecessários, a me entregar a alegrias sinceras.

E me mimo, inclusive. Acrescento pequenos detalhes à decoração da casa, cuido da alimentação, reduzo os remédios, tieto o filho, a nora, o neto que já vem. Cuido das plantas, alimento tanto gatos quanto passarinhos que passam por aqui, me preocupo com a amiga saudosa dos seus, a vizinha que sofre com o ciático, a faxineira às voltas com o INSS… Agradeço ao jardineiro que encontro lá embaixo, deixando o prédio com o perfume de grama recém-cortada, respondo às muitas mensagens virtuais que me chegam, preencho a agenda com novos compromissos, a maioria, prazerosos.

E por estar assim, tão disponível outra vez, acolhendo a vida de braços abertos, me deparo com um filme na tevê, tarde da noite, em que uma mulher humilde sova a massa antes do amanhecer, sob a luz do lampião, e comenta: “pão é como gente: se não respira, endurece”. Simples assim.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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