Pequenas esperanças [Ana Laura Nahas]

Posted on 04/11/2015

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Ana Laura Nahas*

Elas são o contrário do título do romance em três volumes que Charles Dickens escreveu sobre a saga do mais ou menos afortunado Philip Pirrip. São econômicas como determinadas conversas deviam ser, mansas como o modo de viver daquele homem, suaves como seu cheiro, essenciais como o seu amor. Nascem de um detalhe, uma palavra bem colocada, uma visita, um telefonema no meio da madrugada, um encontro, um abraço, um olhar, um presente feito à mão, a própria mão encostada de um jeito bom – aquele jeito.

Às vezes até um silêncio diz delas, pequenas esperanças que a gente alimenta para conseguir superar dias difíceis e noites conturbadas, parar de chorar, voltar a sorrir e quem sabe dormir um pouco.

Elas são o contrário das expectativas desfeitas, de quando a gente descobre que os laços que fez não necessariamente terão final feliz, de quando a gente pensa que vai ser reconhecido no trabalho quando não necessariamente vai, de quando acredita de novo no amor apesar das desilusões anteriores, e depois outras e de novo o amor. Nascem no movimento ou no sossego, um feriado calmo em frente à TV ou uma seleção inteira de sons, em alto e bom volume, um depois do outro.

Às vezes até um sorriso diz delas, pequenas esperanças que a gente alimenta para conseguir levantar e seguir adiante, trabalhar, cozinhar, almoçar, lavar os pratos e quem sabe criar um pouco.

Elas são o contrário da desconfiança, aquela sensação boa de acreditar, contar a vida inteira numa noite de conversa, votar no amigo de infância que resolveu ser vereador, entregar o joelho pro médico na sala de cirurgia, dar a chave pra faxineira, emprestar seu filho pra passear com a tia, dormir na estrada enquanto o outro dirige. Nascem vai saber de onde, vai saber por qual motivo, vai saber.

Às vezes qualquer coisa diz delas, abrir a porta de casa pros amigos que acabou de fazer, consentir o vizinho pra síndico, entregar as unhas pra manicure de alicate afiado, emprestar o vestido preferido pras amigas, dormir abraçado enquanto o outro vê o futebol, simplesmente porque confia, e muito.

Elas são como as canções que as meninas da Augusta e adjacências emprestam pra quem quiser declarar o que sente com verso e melodia, Cibelle, Marina, Anelis, Maria do Céu, Tulipa e Tiê em letra, música, amor, planos para o futuro, paisagem, verdade desde o início, certo, incerto, dançar até sem saber rodar, lugar comum.

[Queria te contar que tem espaço de sobra no meu coração].

Nascem da genética ou da bagagem, lembrança, herança, distância ou nem, capacidade de dar a volta por cima, otimismo ou coisa do tipo. São o contrário do título do romance em três volumes que Charles Dickens escreveu sobre a saga do mais ou menos afortunado Philip Pirrip, o contrário das expectativas desfeitas, o contrário da desconfiança. São as pequenas esperanças, que trazem cor aos tempos difíceis.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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