Xico Sá e o fim do macho-jurureba

Posted on 03/11/2015

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Um dia Xico Sá deixou de ser um sério repórter de política para investigar a humaníssima capacidade da gente se lascar no amor feito maxixe em cruz. E, inspirado por mestres como Nelson Rodrigues, Paulo Mendes Campos e Antônio Maria, começou a lançar as suas reflexões na forma de crônicas. Lá estão esquadrinhados os modos de macho e as modinhas de fêmea dos anos 2000 – tudo de forma bem descontraída, afinal, Xico Sá é um homem de riso fácil, que mal carece de dentista ou manchas de nicotina. “Os Machões Dançaram – Crônicas de amor e sexo em tempos de homens vacilões” (Record, 2015) é o livro de crônicas que fecha uma trilogia sobre o assunto. De forma brincalhona, o cronista faz um relato verdadeiro e contemporâneo da sinuca de bico em que os machões se meteram.

Falamos, é claro, do macho-roots, o macho-jurureba, com todos os defeitos de fábrica, e não o macho caricato que aposta em datas como o “Dia do Orgulho Hetero”. Pois o macho-roots está com os dias contados, e talvez nem exista mais – Lacan explica. Atento à situação, Xico enxerga algumas poucas saídas possíveis: o macho assumir a posição de Amélia, pois há momentos da história em que apenas a submissão total e irrestrita garante a sobrevivência; a humanidade retomar a sua vocação agropastoril; ou então a salvação pelo pansexualismo.

Paranóias delirantes à parte, o que Xico faz é retratar os conflitos de relacionamentos nascidos em um período em que, mais do que nunca, a mulher assume uma nova postura na sociedade. As posições do cronista são, de maneira geral, bastante favoráveis às mulheres (não concorda apenas com a ideia de que devem recusar gentilezas masculinas). Xico pega o mote em uma notícia, em uma conversa, na história de alguém que lhe escreve, e se torna conselheiro sentimental à Antônio Maria, com exageros, gracejos, repetições e verdades eternas à Nelson Rodrigues.

Naturalmente, ele não se ocupa apenas do cromossomo Y e as diferentes formas com que ele se manifesta (há tipos impagáveis, como o Macuanemo e Homem-Ossanha). Também está bastante interessado nos quereres e malquereres das mulheres. Porque nada mais instigante para um homem do que esse exercício de entender a mulher – se isso fosse fácil não seria tão extraordinário. E Xico está por dentro das novas maneiras de se relacionar, das possibilidades que a a tecnologia oferece, essas em que é preciso se abaixar para digitar no celular como se estivesse fazendo um crochezinho – sobre o amor moderno, no entanto, ele não abre mão da questão da pele.

Em meio a sístoles e diástoles, o cronista pondera que o bom é ter sempre um suspenzinho amoroso ou sexual para aliviar o trabalho e os dias – ainda que você more na Carençolândia, que é como ele chama São Paulo. O que não dá é para ficar chupando o frio Chicabon da solidão.

machoes

Os Machões Dançaram – Xico Sá

Record, 2015, 196 p., R$ 32

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