A vara do Cidão [Domingos Pellegrini]

Posted on 02/11/2015

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(Imagem: Ariadny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

A vara do Cidão se foi. Ele me deu de presente depois que também se foi e, uma semana depois, sua mãe chamou:

– O Cido disse que queria deixar suas varas de pesca para os amigos. Esta ele falou que é pra você.

Uma vara amarela, com cabo de madeira, coisa fina como Cido gostava. E me deu tantos peixes! Mas era manhosa: se a outra vara pegasse três peixes seguidos, e ela nenhum, então ela se negava, passava a tarde toda sem mais nem triscar, quietinha que só. Mas, na pescaria seguinte, pegava três peixes enquanto a outra nada pegava.

E gostava de elogios. Pegava um peixe, eu elogiava – Você é a vara mais bonita deste pesqueiro – e ela pegava outro peixe em seguidinha.

Foi companheira de tardes surpreendentes, com vôos de garças e cantos de passarinhos, a brisa enrugando a lagoa, o teatro magnífico do Sol poente, até o dia em que, de repente, mal ouvi a sineta, vi minha companheira ser arrastada para a água, feito uma cobra reta a deslisar pela grama. Pulei, tentando pegar, mas que! Tentei puxar do fundo com anzol e chumbada, e nada. Então me conformei: vara do Cidão, descanse em paz. Lembrei um dito dele:

– Tudo passa – completando com olhar matreiro – E tudo fica.

Um dia, resolvi perguntar:

  – Como assim, Cidão, se tudo passa como é que fica?

Ele respondeu sorrindo com seu olhar menino:

– Fica pra pagar a vida, ué. Cada instante que passa, fica enquanto é vivido.

Sim, Cido, tua vara me lembra que tudo que temos é tempo, apenas tempo, que gastamos vivendo, tempo que vai morrendo para nos pagar a vida.

 Sempre admiro de saber que os cientistas continuam tentando aprimorar a teoria do Big-Bang para explicar o começo do Universo. Mas, ora, se existiu um Big-Bang que tudo teria começado, o que existiria antes dele? Nada? Mas como é possível nada existir? Mais incompreensível de que tudo existe infinita e eternamente, é a idéia de que nada exista. Então tudo teria vindo do nada?…

Acho confortador pensar que tanto o Universo quanto a Eternidade são  incompreensíveis, e assim resistirão a quantos super-telescópios enviarmos ao Espaço, a quantas teorias inventarmos para sondar o que está além de qualquer sondagem. Lembro da frase taoista: “Deus é a palavra que inventamos para expressar nossa perplexidade diante dos mistérios absolutos do Infinito, da Eternidade e da existência”.

Uma coisa só é certa: o ontem e o amanhã estão no instante. No instante em que tua vara se foi Cidão, foi como um clarão a dizer que um dia também irei, todos iremos, e isso é que faz de cada momento o melhor tempo da Eternidade, e o chão que pisamos o melhor pedaço do Infinito.

Ou: o tempo perguntou pro tempo quanto tempo o tempo tem, e o tempo respondeu pro tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tem.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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