Dança das cadeiras III [Rubem Penz]

Posted on 30/10/2015

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Rubem Penz*

“Dança das cadeiras”, ferramenta de gestão urdida na cabeça do jovem e ambicioso editor chefe do jornal, nasceu com um objetivo: retirar os colaboradores da zona de conforto (como se em algum momento fosse confortável ser jornalista). Antes de cada edição, acontece a tradicional palestra em que ele enaltece uma de suas passagens pelos vários setores de um grande jornal. Por exemplo quando, ainda estagiário, operava o Xerox: concluiu que homens utilizam essa máquina 12,7% mais do que mulheres. Para sua decepção, ninguém pareceu entender a relevância do dado, seguindo com umas caras de “Ah, é, é?”.

Interessado em mensurar o feedback do público interno, o editor chefe chamou a tia do café para perguntar se ela escutara alguma repercussão na equipe. Ela disse que sim. Victor Voz, por exemplo, o temido editor de polícia, reclamou muito da cadeira que estava ocupando. “Não dá para reclinar sem ouvir um inhéqui sinistro”, foi o depoimento que ela ouviu. Na ocasião, para Victor Voz coube escrever sobre culinária:

Bacalhau à Voz (de prisão)

Ingredientes:

4 postas altas de bacalhau (já demolhado após interrogatório prévio)

colorau e (spray de) pimenta

óleo quente

6 batatas, 4 cebolas e 8 dentes de alho

1,5l de azeite

azeitonas 9mm

Modo de preparo:

Aproveite um arrastão e detenha 4 postas altas (de maior) de “bacalhau”, se é que me entendem. Com um pano molhado, aplique uma surra. Com outro, enxugue as postas para conter evidências. Polvilhe-as com colorau de modo a tudo ficar na cor de hematomas. Diga para quem quiser ouvir que estas postas serão fritas em óleo, previamente aquecido, sobre lume moderado.  Volte-as com tapas espalmados tipo escumadeira e deixe alourar, de ambos os lados.  Escorra sobre papel absorvente.

No mesmo óleo frite as batatas, descascadas e cortadas em rodelas grossas.  Escorra também sobre papel absorvente. Descasque as cebolas e os dentes de alho, corte-as em rodelas finas e leve ao lume com o azeite.  Deixe cozer a cebola, até estar macia.

Coloque a quadrilha de “bacalhaus” e as batatas numa travessa de serviço e cubra com a cebolada. Enfeite com azeitonas 9mm e dê por terminado.

Há quem diga que esta receita não se aplica aos peixes grandes, mas isso só pode ser intriga de quem defende vagabundo. Eu, chef Victor, digo que ela serve para muita gente. “Bacalhau”, comigo, está frito!

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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