Bengalas e bigodes [Domingos Pellegrini]

Posted on 26/10/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

Churchill é quem mais símbolos usou para ornar a própria imagem: com o chapéu, mostrava-se britânico; macho com o charuto;  com os dedos anunciando vitória. E ainda usava bengala, embora não tão bem quanto  Ghandi.

Chamado a Londres para negociar a libertação da Índia, Ghandi se hospedou em casa de indiano, recusando hospedagem oficial, e, para ir às conferências cruzava a cidade com bengala, manto e sandálias,  simbolizando a pobreza e a resolução de seu povo. Com ele iam repórteres e fotógrafos de todo o mundo, fazendo de cada caminhada um comício global.

Charlie Chaplin criou Carlito com chapéu côco, também bengala e fraque com botinas esfrangalhadas, traje nobre com calçados pobres, contraditória síntese visual do seu cativante personagem.

Já Sherlock Holmes usa tripé de símbolos: a nobreza da bengala, a introspecção do cachimbo, o britânico chapéu de camurça.

Temos bigodes famosos como o pontudo de Stalin, a simbolizar seu caráter ferrenho; o bigodão do líder polonês Lech Walessa, expressão visual de sua rebelde bonomia (bigode que Leminski adotaria, a simbolizar a transformação que muitos socialistas recusaram). E, claro, há Hitler, que no quesito bigodes é até hoje invencível, mesmo diante dos bigodes surreais de Salvador Dali.

Há os que adotaram como símbolos peças de vestuário. O colete de Lênin, a indicar a origem burguesa da maioria dos líderes do socialismo dito proletário… A boina estrelada de Guevara, a indicar sua maestria em criar frases de efeito. A farda de Fidel, a simbolizar o regime cubano sempre em guerra contra o futuro. O macacão-uniforme de Mao, símbolo da padronização mental do socialismo.

E há os gestuais. O aceno de Getúlio Vargas. O sorriso de Juscelino. O sorriso de Kennedy encimado pelo topete.

Recentemente, houve líderes políticos com o gesto de levantar o braço com punho cerrado, mas depois passaram a andar cabisbaixos, até porque algemados nas costas.

Ao contrário, símbolo de alegria e confiança era a camisa colorida de Mandela, fora das calças enquanto ele se mostrava primeiro e único estadista a dançar em cerimônias públicas.

Há também, nessa galeria de imagens, os belos e doces olhos de Jesus, que tanto vemos pintados e impressos – e que ninguém sabe como realmente eram; imagem pública feita não pela pessoa mas pelo público.

Os olhos de Jesus simbolizam nossa crença em melhorar a realidade. Não deve ser por outra razão que caprichamos nas roupas, usamos jóias e penteados, pedicure e manicure, tatuagens e piercings. Todos, menos os loucos, queremos parecer melhores ou únicos para os outros.

Mas Einstein apenas botou a língua para fora.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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