Viver e outros verbos [Raul Drewnick]

Posted on 25/10/2015

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Raul Drewnick*

Em certos dias parece belo viver, se conseguimos nos esquecer de que sóis tão majestosos e pássaros tão alvissareiros brilharam e cantaram para Romeu e Julieta, quando os induziram àquele horrível final.

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Viver é sempre a mais temerária de nossas atividades.

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Viver é o tipo de jogo do qual saímos sabendo menos do que quando entramos.

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Deveria haver nos jornais uma cotação diária do amor. E ela deveria ser feita por alguém que não tivesse pudor nenhum em ser descaradamente otimista.

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Viver não é tão difícil. Vamos lá, você já conseguiu outras vezes. Recorra à memória. Algo deve ter ficado nela, desse tempo. Ao menos um pouco daquela esperança, que era feita da errônea interpretação que você dava às intenções de certo sorriso e de certos traiçoeiros olhos verdes.

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Foi só quando ela lhe disse bom dia que ele notou como o sol saltitava entre as flores, no parque, para beber as últimas gotas da chuva da madrugada.

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Refugiou-se em casa e, quando tocavam a campainha, ele agora não ia nem espreitar pela cortina, com medo de que o amor viesse tentá-lo sob a forma de uma vendedora de yakult, de uma carteira entregando sedex ou, como acontecera na última vez, de uma pregadora disposta a tudo para divulgar sua seita.

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Gato é o tipo de palavra que fica bem em qualquer frase.

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Já que é preciso morrer, caprichemos. Não há uma segunda chance.

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Olhando disfarçadamente as mãos da mulher, ele avaliava o que elas poderiam fazer se, dando-lhes liberdade, ela as deixasse passear nos cabelos dele, nas orelhas, no pescoço, na nuca, nos, nas, no, na…

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No almoço de família, o tio viúvo contou tantas calamidades amorosas e chorou tantas feridas que o menino lhe perguntou: “Tio, amor morde?”

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A maioria dos que vivem para escrever não vive de escrever.

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Que generoso é o amor. Nunca recusa lágrimas aos nossos olhos, quando nos lembramos dele.

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No porão mais escuro e frio da memória, os frutos não colhidos e o mel não provado abraçam-se tão tristemente quanto um bando de meninos órfãos.

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Quando viu, era de novo primavera. E precisou explicar mais uma vez ao corpo cansado que acreditar naquilo que o coração e a alma sugeriam podia ser belo, mas impossível.

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E contudo, e apesar de tudo, pulsa ainda o coração, e os olhos veem, e as pernas se movem, mas pulsa para quê, mas olham para o quê, mas para onde se movem?

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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