Os bichos de ventre grande de Pedra Pintada [Mariana Ianelli]

Posted on 24/10/2015

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Mariana Ianelli*

Uma visita a Pedra Pintada tem qualquer coisa de fábula. O caminho para o sítio arqueológico fica à direita de quem contorna a Igreja de Nossa Senhora do Rosário (1855), na Vila Colonial de Cocais. Passa-se uma ponte e então começa o chão de terra batida da Estrada Real que leva até Pedra Pintada.

Hoje quem faz esse caminho é gente de toda parte, argentinos, espanhóis, israelenses, franceses, brasileiros, alemães, que, chegando ali, desembocam numa simples casa de família com o nome de Jesus nos ferros da grade da porta. Dona Maria, com as mãos roxas de colher jabuticabas, e seu José, guia das trilhas, recebem os visitantes.

Morando na Serra da Conceição há quatro gerações, a família de dona Maria faz a guarda da região. A entrada para o sítio arqueológico se dá por um portãozinho lateral da casa, um modo, diga-se, bem mineiro de introduzir alguém nos mistérios que ainda hoje se guardam no corpo das montanhas, como a igrejinha centenária descoberta há pouco tempo entre Bento Rodrigues e Santa Rita Durão.

Dona Maria cuida do livro de visitas, dos ingressos e do balcão com mel, vinho e licor de jabuticaba. Seu José vai pela trilha, conduzindo, e não vai só: tem Creolina, uma cadela pretinha que já há dois anos faz e refaz o mesmo trajeto quase com orgulho de mostrar para quem chega os tesouros de onde ela mora.  Creolina ultrapassa seu José e se atira numa fonte, exibe-se nadando na água fria, depois salta de novo para terra, se enfia entre uns espinhos.

A caminhada não é longa, mas seu José gosta de parar pelo caminho e ir mostrando as plantas, a flor púrpura do cacto, os cachos amarelos da panaceia-do-campo, a lãzinha que a canela-de-ema forma antes da folha, e os bichos, seu José também gosta de falar dos bichos dali, o quati, o tatu, o veado campeiro, o cachorro-do-mato.

A trilha então se abre, à direita, para um mirante, à esquerda, para um primeiro painel de rocha com pinturas de animais e flechas em cores que parecem frescas nos seus estimados 6 mil anos. Peixes, macacos, veados, bichos de ventre grande em vermelho, preto, amarelo, ocre. Quem primeiro analisou essas pinturas foi um paleontólogo dinamarquês chamado Peter Lund, em 1843. Existem mais pinturas, continuando a trilha, em outro paredão de rocha mais escondido, que seu José não aconselha a ver de perto por causa das abelhas que tomam conta da rocha.

Faz tempo não chove, seu José reclama que isso está matando as plantas. Creolina salta de pedra em pedra, sem medo das abelhas, se enfia por um buraco e desaparece de novo. Na volta, seu José volta sem pressa, fala da panaceia-do-campo, do óleo que ela dá, fala na flor linda da canela-de-ema, que, se chover, quando chover, vai despontar, coisas pequenas, do tempo pequeno, que preocupam quem cuida de um pedaço ancestral de montanha.

Perto da saída, Creolina se atira outra vez na fonte, toma um novo banho, depois molha os visitantes um a um, se despedindo, saltando em duas patas, balançando o rabo. Do lado de fora da casa, é com dona Maria, é ela que dá boas-vindas e boas-idas aos turistas, antropólogos, estudantes, pesquisadores acadêmicos, ela, dona Maria, que, no fim de tudo, abre o livro de visitas e oferece um copo do seu vinho de jabuticaba.

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Pinturas rupestres de Pedra Pintada, Vila Colonial de Cocais, MG

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Flor do cacto no mirante da Serra da Conceição

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Entre as montanhas da cadeia do Espinhaço, a 1250 m do nível do mar

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Creolina, cadela-guia das trilhas de Pedra Pintada

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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