O dia seguinte [Madô Martins]

Posted on 23/10/2015

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Madô Martins*

Passou o aniversário, mais suave até mesmo do que destacar o dia do calendário ou virar a página da agenda. Ainda estou com o coração acariciado, de tanto ler e ouvir preciosas mensagens que tantos amigos e leitores me dedicaram. Ainda sinto o estômago pesado, de tanta pizza, bolo, brindes. E, nesta manhã seguinte, calculo, como todo ano, os dias vividos, que sempre considero poucos. Desta vez, foram 24.455 (sem levar em conta os bissextos) e deve ser por isso que às vezes me canso da rotina e tudo que traz consigo o ranço da repetição.

É bom atravessar tantos nascentes e poentes, e ainda ter vontade de conhecer e aprender coisas novas, ainda me surpreender, ainda fazer planos, ainda me refazer dos sustos e tropeços, ainda me levantar depois da queda. Mas já não tenho resistência física para certas tarefas ou exercícios nem paciência para insistir em manter compromissos indesejáveis, seja nas relações pessoais ou de trabalho. Sofrer à toa é com os mais moços. Estou no tempo de buscar tranquilidade e bem estar, me permitir retomar projetos adiados, esquecer o relógio, conviver com quem me faz bem, cultivar os poucos talentos.

Além das reflexões de praxe, o dia seguinte também me lembra uma velha teoria particular, de que a vida se assemelha a uma esteira de linha de montagem a percorrer as várias etapas programadas pelo inventor do produto. Lentamente, sem que notemos de imediato, vamos mudando o corpo, o pensamento, a vontade, os papeis que assumimos em sociedade. Quando estamos “prontos”, desaparecemos da esteira, cedendo lugar aos próximos.

Enquanto isso não acontece, sigo até o compartimento de remodelar a casa, o de me tornar avó, o de explicitar o bem querer a amigos antigos e leais, o de me fazer entender pelos demais, acoplando novas peças a este modelo quase fora de linha, mas ainda com alguma eficiência.

Não sei quanto tempo ainda levarei para chegar ao fim da esteira, desembocar num vão desconhecido e logo ser esquecida. Até lá, vou comemorando a vida, apagando cada vez mais velinhas, descobrindo novas marcas do tempo na pele, adaptando-me aos costumes dos que vieram depois de mim, apreciando o mundo com olhar auxiliado por lentes…, mas adorando cada segundo.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

 

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