Rio, 42 [Daniel Cariello]

Posted on 22/10/2015

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Daniel Cariello*

– Quer um limão?
– Mais tarde.
– A banda de Ipanema sai amanhã.
– Prefiro o Bola Preta.
– Tá doido? Esse tá cheio demais. Ano passado deu mais de um milhão.
– Sanduíche natural, olha o sanduíche.
– O sujeito abre uma lata de atum, coloca no pão e chama isso de sanduíche natural.
– Chamou, freguês?
– Chamei não.
– Quem quer empada? Empada praiana.
– Tem de frango?
– Tem, mas acabou. Sobrou palmito.
– Duas.
– Dez reais.
– Ontem era oito.
– Hoje é dez. Quer ou não?
– Dá, vai…
– Açaí, açaí.
– Domingo tem o cordão do Boi Tatá.
– Eu gosto, mas é cedo demais.
– Parece que a Teresa Cristina vai tocar.
– Ela sempre dá uma palhinha.
– Tem coco, moço?
– Geladão.
– Um bem verde, faz favor.
– Tá aqui. Pega o canudinho.
– Laranja com cenoura! Suco natural.
– Caraca, que calor!
– Ontem fez 42.
– Em Paris caiu a maior nevasca.
– Olha, vou dar um mergulho. A água tá ótima hoje.
– Quer brinco, freguesa? Sou eu mesma que faço.
– Hoje não.
– Dá só uma sacada naquele argentino com camisa do River Plate.
– Tirou a camisa. Vai entrar no mar.
– Cacete, levou o maior caldo.
– Chapéu, chapeau, hat. Barato, pas cher, cheap.
– Vendedor poliglota…
– No Rio, todo mundo se vira.
– Tô achando a água escura demais. Deve estar suja.
– Suja nada. É uma alga que se prolifera com o calor, tchê. La no Guaíba tem a mesma.
– Que mania é essa de pensar que o Rio Grande é o centro do mundo?
– Baguete recheada! Calabresa, presunto, tomate.
– Hey, mister. Eu querer uma.
– De quê?
– Tomato, plis.
– Já definiu que fantasia vai usar?
– Nada. E você?
– Vou de presidiário. Até já comprei a máscara do Cerveró.
– Essa já saiu de moda, era do carnaval passado.
– Aaaaaaabacaxi.
– Esse cara do abacaxi… O maior chato da praia.
– Daniel, é melhor você sair do sol. Vai acabar se queimando.
– Sair daqui? Nem morto. Tenho que trocar esse branco Champs Élysées por um bronzeado carioca.
– Quer um limão?
– Quero. Me vê um grande, com um pouco de mate.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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