Campo de Fiori [Elyandria Silva]

Posted on 22/10/2015

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Elyandria Silva*

E os campos geralmente dão essa sensação de liberdade. Um espaço infinito aos olhos, largo, grande, sem esquinas, nem vielas. Mas tem aquele que ninguém gosta de falar, sequer de lembrar. O campo das maldades inexplicáveis, da tristeza congelada, que virou livro, filme, conversa de alguma hora, lembrança amarga, uma história preta e muda.

Era mais uma unidade de dia lindo numa sequência de vários. Aqueles dias em que a arquitetura de cores, contornada pelo azul e a luz quente, que se deita sobre tudo, é de uma beleza tão estarrecedora que dá medo. Uma perfeição a qual nunca se está preparado e que ninguém contou que existia. E foi nesse cenário que seguimos as placas, a pé, rumo ao Campo de Fiori, para fazer o encontro da realidade com a fotografia da mente e do sonho.

Fácil pensar que os macarrões coloridos – em formato de gravata, parafuso, pequenas ondas – tinham sido pintados a mão. Ou que os temperos, que perfuravam ao r com sabores italianos, tinham sido invadidos por confetes e outros enfeites coloridos e mágicos. Mais à frente, com a pequena sacola com o macarrão, parei para acompanhar a ciranda das frutas. Pedaços de frutas grandes, sortidos, brilhantes, quase vivos, preenchiam todos os espaços de copos grandes e transparentes. Não tinha balcão climatizado, e sim pequenas montanhas de gelo picado, que se uniam em grossas fileiras, sob um vidro de vitrine, para gelar as extremidades inferiores dos copos. Eles dançavam pra lá e pra cá à medida que os copos eram vendidos. Comer salda de frutas às 10h da manhã não é algo incomum. Pedaços doces, o abacaxi em especial.

Já tinha comido a metade, dentro de um risco de sombra, quando um jato forte de água, vindo de uma pequena fonte com torneira, fixada ao chão, me atingiu com impacto. Banhou rosto, boné, o copo de frutas e parte da blusa. O velhinho em frente à fonte se espantou, ria muito, tentou explicar que só foi beber água e que a culpa era do rapaz ao lado, que aprecia ser indiano e também ria, mas pouco entendia do que aconteceu, porque o velhinho falava tão rápido quanto o seu italiano permitia. Um sorriso de melancia mostrou o quanto também achei engraçado. Um passo para o lado e o sol resolveu tudo.

Só num campo de flores, num domingo de manhã, um banho inesperado de água causado por um velhinho banguela, quando se está toda arrumadinha, faz a existência valer a pena. É uma feira livre, um mercado aberto, numa praça, no centro de Roma. Na Piazza dei Fiori, perto da Piazza Navona. Acontece todos os dias, menos aos domingos. Flores, poucas, mas têm flores, assim como também têm legumes, frutas, massas, temperos, bolsas, tanta coisa que se perde à medida que os segundos passam e os olhos vão em outra direção. Com a sutileza das alcachofras quase dá para se esquecer da gritaria italiana ao redor e do colorido das barracas concorrentes, ao lado. Um mosaico de cores e sabores, as sensações que vazem pelas bordas da curiosidade e da vontade de ver outros mundos que não só o da vida comum.

E assim, quando se olha uma fotografia de um lugar bonito onde se esteve é possível ter um campinho de flores só para si, nem que seja na memória e num quadradinho de 10x15cm.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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