Nos jardins do Museu [Daniel Cariello]

Posted on 15/10/2015

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Daniel Cariello*

Logo na entrada dos jardins do Museu da República há bancos reservados para idosos. Não há separação ou placa indicativa, mas o local parece lhes ter sido designado, pois a média de idade dos que os ocupam gira em torno dos 70 anos, talvez 80. Procurando um lugar livre, sou seguido pelos olhos dos presentes até me instalar próximo a um grupo de senhoras tagarelas.

– Qualquer uma que não tenha namorado é sapatão.
– Eu discordo. Não sou casada e nem sou sapatão. Também não gosto de beijar na boca. Minha filha beijou na boca e pegou uma pereba enorme.
– Nem te conto, ontem eu vi o Roberto Leal na TV. Ai, como ele canta bem. Já ouviu a nova dele?
– Pois com esse eu casava e até dava beijo na boca. Ele não deve ter pereba, né?

Levanto-me e continuo andando, passando por outros grupos de velhinhas. Tenho vontade de abraçar uma delas, parecida com minha saudosa avó materna. Ela borda motivos em um paninho que talvez mais tarde receba afeto e babas de um neto. Talvez seja vendido em um bazar comunitário. Ou talvez termine seus dias esquecido no fundo de uma gaveta.

São 16 horas, pego a última mesa livre no café do parque e peço um expresso. Prefiro coado, mas esse só se encontra em casa, padaria ou lanchonete de estrada, então me contento com o que tem.

Um engravatado conversa com um igual sobre o artigo 130 e os tipos de divórcio. Como esse assunto não me interessa, sintonizo o canal mental na mesa ao lado, onde uma garotinha de rabo de cavalo devora a grandes bocadas uma fatia enorme de bolo de chocolate.

Do outro lado, um careca barbudo e magro digita alucinadamente em seu computador, enquanto à minha esquerda um casal conversa à meia-voz, sem sorrir. Ele desvia o olhar quanto ela o mira. Ela abaixa a cabeça e quebra um palito de dentes quando é ele quem levanta os olhos.

A garotinha agora dá cabo de um pão de queijo em três mordidas. Logo atrás dela, um grupo de senhoras emperequetadas joga baralho, o que me lembra dessa vez da minha avó paterna, sempre tão arrumada e imbatível na canastra até o Alzheimer impedi-la de continuar.

Pago a conta e continuo a caminhar. Cruzo duas jovens mães discutindo sobre o último sucesso da Galinha Pintadinha. Um jovem pai, que posiciona o carrinho do bebê em frente às enormes palmeiras imperiais e sai fotografando sem dó. E uma nova aglomeração de senhoras, que se dedicam com afinco a uma série de exercícios de alongamento, observadas por uma mais velha, em cadeira de rodas.

Paro para ler uma placa e descubro que o modelo do pijama vestido por Getúlio Vargas na noite de seu suicídio, no palácio a poucos metros dali, será novamente produzido comercialmente e poderá em breve ser encontrado nas melhores casas do ramo, sob o nome Catete. Virá exatamente como o do ex-presidente, com calça e camisa em tecido Saint-Tropez, com bordados e botões em madrepérola. Mas “sem a marca do tiro no coração e de sangue”, frisa o comunicado necrófilo.

No parquinho infantil, já perto da Praia do Flamengo, oito crianças lotam um roda-roda. Todas se aboletam em cima do brinquedo e não sobra ninguém para girá-lo, então elas empurram com os pés, cada uma forçando para um lado diferente, o que o mantém rigorosamente no mesmo lugar.

Elas o abandonam e partem para o escorregador. Logo o largam, para retornarem ao roda-roda. E não tardam a fazer o caminho inverso, voltando novamente ao outro brinquedo, vivendo um dilema que ocupa momentaneamente suas cabeças repletas de infância. E de inocência. E de deslumbre com a vida, em uma conexão quase transcendental com as velhas frequentadoras da entrada do jardim.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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