Piedade de Nossa Senhora da Piedade do Paraopeba [Mariana Ianelli]

Posted on 10/10/2015

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Mariana Ianelli*

Maria Bethânia irá se apresentar em Inhotim na próxima semana com o espetáculo “Bethânia e as Palavras”. Um show de poesia e música, Cecília Meireles, Sophia de Mello Andresen, Padre Antônio Vieira, entre outros mestres, no caldo de canções brasileiras e portuguesas que serão interpretadas por Bethânia. O preço do ingresso é, por assim dizer, digno do cenário de oásis em que o show acontece, e isso dentro de uma programação especial que vem celebrar os 2 milhões de visitantes de Inhotim desde sua abertura ao público em 2006.

De fato, Inhotim é um impecável cenário de natureza esculpida, por onde se espalham recantos de arte uns suficientemente distantes dos outros para que, num sábado ou num domingo de sol violento, visitantes os menos atléticos se rendam ao aluguel de um carrinho caso queiram visitar, por exemplo, as salas de Adriana Varejão, ou de Tunga, sem enveredar numa subida, seguindo a pé o circuito dos carrinhos.

A visita, que os funcionários do parque recomendam ser feita em dois dias, dá muito o que pensar sobre o luxo paisagístico de Inhotim e as fontes do mito, da história e das religiões em que bebem tantas das obras de arte contemporâneas ali, considerando a realidade adjacente, tão modesta, de Piedade do Paraopeba, distrito de Brumadinho, a menos de uma hora de carro de Inhotim, onde as tais fontes da arte subsistem com muito menos fama.

Hoje casa de andorinhas, sem seus altares de madeira entalhada típicos do barroco mineiro, com buracos nas paredes e no forro, cimbramentos na entrada, manchas pretas de umidade na fachada, a Igreja de Nossa Senhora da Piedade, azul e branca, é tenaz na sua graça. Recebe a comunidade nas festas e nas missas, apesar de estar se deteriorando. Enfeita-se de flores frescas no jubileu da padroeira, e se deteriorando. Sua existência tem mais de três séculos (1713), é mais velha que Ouro Preto, é do tempo em que se cunhavam as moedas ali no alto da Serra, onde ainda agora as mineradoras trabalham dia e noite comendo a montanha.

Diante da história do povoado, da idade da igreja, ou dos séculos de mineração na região, o tempo de existência do oásis de Inhotim é como um sopro. Mas as comemorações são faustosas em Inhotim, são vários espetáculos só neste mês, entre os quais o de Bethânia, para honrar os 2 milhões de visitantes desde sua abertura. Honrar o sucesso da arte é bom. Honrar as belezas da natureza esculpida e das palavras. Mas ainda melhor, muito melhor, seria cuidar das palavras também no que delas se realiza e vive, cuidar da arte naquilo que são suas fontes.

InhotimInhotim em Brumadinho (MG)

ParaopebaNossa Senhora da Piedade em Piedade do Paraopeba, distrito de Brumadinho

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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