Duna habitada [Madô Martins]

Posted on 09/10/2015

2



Madô Martins*

A janela da área de serviço é meu terraço. Dali avisto as construções que sobem dia após dia, encurtando o horizonte e – pior de tudo – escondendo a nesga de céu por onde acompanho o por do sol. Mais três andares, e o perderei definitivamente de vista.

À esquerda, agora existe um terreno árido onde antes havia um sobrado amarelo, habitado por família numerosa. Alguns membros, soube pelas roupas penduradas no varal, eram médicos, diria até, cirurgiões, porque nos pregadores podiam ser vistos aqueles camisões verdes que se amarram por trás.

Havia também crianças, dos patrões e dos empregados, que se divertiam na piscina e tomavam lanche numa grande mesa instalada no pátio. E coqueiros, que precisavam ser aparados de vez em quando, porque as palmas, ao cair, poderiam destruir os telhados da redondeza.

Sobraram o muro amarelo e um resistente mamoeiro junto a ele, carregado de frutos que ninguém colhe. O terreno vem sendo usado como depósito de material de construção e muda de aspecto a toda hora, lembrando as dunas descritas por Amyr Klink, quando navegava pelas costas da África. Um dia, monte de pedrisco, outro, tábuas de vários tamanhos, ou ainda, latas de tinta e massa, ferros, tijolos.

Nos fundos, construíram um barracão que talvez sirva de alojamento para os operários. Uma casinha de cachorro sem qualquer cão. E gatos, muitos, locais e visitantes. Gosto quando não chove, e eles aparecem. Acomodam-se sobre as tábuas, enroscam-se para dormir sobre latões enferrujados, sem nunca perder a elegância.

Pelo menos quatro fazem parte da mesma família. São de um branco alvíssimo, pintados com manchas negras, cada qual com seu desenho. Orelhas e caudas também são pretas e eles se dão muito bem, fazendo tudo em grupo. Quando os vi das primeiras vezes, pareciam a mãe e três filhos, mas agora estão todos do mesmo tamanho e já não distingo quem é quem.

Além deles, conheço pelo menos dois visitantes frequentes, também com pelo branco e preto: um já idoso, muito sujo, porque deve andar por baixo dos carros da rua, e outro, miúdo, com rabo cotó. O mais velho tenta namorar com as meninas. O pequeno se enturma com os demais, come e dorme com eles.

Alguém que nunca vi lhes dá de comer. É quando parecem aqueles animais selvagens que se reúnem em volta do lago, para matar a sede. Ficam lado a lado, concentrados na refeição, e raramente a disputam. Permanecem ao ar livre até o fim da tarde, depois desaparecem e não imagino se sob as tábuas, na casa de cachorro ou além do muro.

Fico torcendo para que a área demore bastante a ser ocupada por um novo edifício. Preocupo-me com o futuro daqueles simpáticos felinos, que agora deram para escalar os telhados, deixando-me apreciá-los mais de perto. Preocupo-me com o ar e a luz que me serão subtraídos, como das outras vezes, quando mais uma torre brotar do chão. Com o mamoeiro que abriga e alimenta pássaros. Com os trabalhadores invisíveis, em seu eterno êxodo, de obra para obra. Minha cidade tornou-se uma imensa duna soprada pelo vento.

__________

Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized