Vênus colidindo com Saturno [Daniel Cariello]

Posted on 08/10/2015

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Daniel Cariello*

Eu, como bom aquariano que não nega sua racionalidade, sou descrente de horóscopo. Não sei onde está minha lua, em que quadrante se encontra Mercúrio ou se Vênus vai colidir com Saturno (e quais as consequências disso, além de uma hecatombe espacial).

No entanto, identifico-me com características atribuídas ao meu signo, talvez de tanto tentarem me imputá-las. Um dos traços mais ressaltados é a descrição dos filhos de aquário como seres solitários, e me vejo perfeitamente representado aí. Fico muito bem em minha própria companhia, adoro viajar sozinho e não me incomodo de permanecer em casa sem ver ninguém durante dias a fio.

Depois que casei e virei pai, ficou mais complicado levar essa solidão adiante. Não me queixo, que fique claro. Adoro a vida em família. Mas estou sempre tão cercado de assuntos e pessoas que já ando celebrando o momento de ir buscar um copo d’água sozinho na cozinha.

Pra desanuviar, gosto andar sem rumo pelas ruas (aquarianos precisam de espaço, pois pertencem a um signo de ar, dizem os estudiosos dessas ciências). Invariavelmente, coloco fones no ouvido. Às vezes os preencho com música. Às vezes, com silêncio. Mas os fones são a garantia que ninguém interromperá meu exílio interior voluntário.

Outro dia entrei em um café no Flamengo e pedi um expresso, tentando retomar hábito corriqueiro de quando morava em Paris. Na França, você pode comandar uma xícara da bebida e passar um dia inteiro ocupando uma mesa, lendo, escrevendo ou apenas observando tempo e pessoas passarem, e não será incomodado. Café e solidão era tudo o que eu buscava naquele momento.

O expresso chegou trazido pelo garçom, que não parava de mexer a boca. Desliguei a música que berrava em meus ouvidos e pedi pra repetir. Perguntou se precisava de algo mais. Disse não e agradeci, retornando à estridente guitarra de Bombino. Passei a alternar pequenos goles de café e longas contemplações daquele micro universo à minha volta, com a visão desfocada de qualquer ponto, embalado pela música, pelo dialeto niger, pelo ritmo tuareg, pelas melodias incomuns, pelo conjunto baixo-bateria, pelo solo distorcido, pelo garçom que se aproximou certeiro e parou à minha frente e se pôs a movimentar o maxilar enquanto me encarava como se eu tivesse dois narizes. Respirei fundo, pausei a trilha sonora e solicitei que falasse novamente.

– O café estava bom, senhor?

Olhei fixamente para ele e senti vontade de derramar um bule de água fervente pela sua goela abaixo, como punição por ter interrompido um valioso e raro momento de êxtase solitário.

Mais tarde, comentei o episódio com um amigo astrólogo amador e ele me disse que aquariano, apesar de pacífico, às vezes pode partir pra soluções violentas.

Sorte do garçom que não acredito em horóscopo.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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