O carro dos ovos [Domingos Pellegrini]

Posted on 05/10/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

Faz dezessete anos que moramos na chácara, faz dezessete anos que ouvimos passar o carro dos ovos com a mesma gravação:

“Bom dia, dona de casa, está passando pela sua rua o carro dos ovos! Use sua criatividade! Use ovos para fazer gemada, panquecas, bolos, pães, use a sua imaginação!”

Dezessete anos! E, entre uma e outra repetição da mesma gravação,  lá vem música gospel, e tome o nome de Jesus usado em vão. Ou melhor, usado para vender ovos.

Assim o carro dos ovos consegue a proeza de desagradar os católicos, os espíritas, os umbandistas e ateus e todos os outros.

Ao mesmo tempo, consegue contrariar Jesus, que fez duas grandes separações. Primeiro, com uma só frase separou Estado e Religião, que até então viviam em conluio: “Daí a César o que é de César, daí a Deus o que é de Deus”.

Segundo, ele separou comércio e religião, não com palavras, mas com relhadas e pontapés contra os vendedores de animais para sacrifício no Templo de Jerusalém, os vendilhões. O comércio de carneiros e aves, em redor do Templo, era autorizado pelos sacerdotes, pois o Templo disso ganhava comissões. Não foi à toa que os sacerdotes depois estariam liderando a multidão que, diante de Pilatos, escolheu salvar Barrabás e condenar Jesus.

Mas o carro dos ovos talvez pense que ninguém se lembrará disso, pois o que importa, para o carro dos ovos, é que eles “vem direto da granja” (mas de onde mais viriam? Do aeroporto, dos oceanos, do céu?)

E importante, para o carro dos ovos, é lembrar: “Traga sua vasilha!” (ou seja, se você quiser guardar seus ovos bem embalados e poupando espaço na geladeira, terá de se virar, pois o carro dos ovos os entregará soltos como são os ovos).

Tempo de crise é também de renovação e aprendizado, para quem quiser dela emergir com o mérito de sobreviver e esperança de sucesso. Sempre penso nisso quando ouço o carro dos ovos com sua velhíssima gravação chiada, arranhada e ranheta: “Use sua criatividade!”…

E era um só carro dos ovos mas, agora, talvez devido ao desemprego, são dois, o segundo copiando do primeiro o mesmo apelo à “criatividade” para fazer bolos, tortas e gemadas, palavra por palavra.

Fico esperando o dia em que o carro dos ovos anunciará que também podem ser comidos fritos, cozidos e até ensopados. Ou, melhor ainda, que são ovos que vem diretamente das galinhas! E que, além de casca branca como só os ovos tem, todos tem também, claro, clara, cada uma com sua gema! E use sua criatividade!

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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