A casa de Ana Elisa Ribeiro

Posted on 05/10/2015

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Casa é lugar íntimo, onde só entra quem tem a senha da amizade e do apreço. A constatação é da escritora Ana Elisa Ribeiro, que, de certa forma, parece incluir os leitores no seleto grupo com acesso à sua vida doméstica. Pelo menos é o que se depreende de alguns significativos textos do seu livro “Chicletes, Lambidinha & Outras Crônicas” (Jovens Escribas, 2012), o seu primeiro no gênero. Fazer crônica, como ela mesma define, é “enxergar o avesso do evento”, e nada parece se encaixar melhor nessa definição do que aquilo que acontece da porta de casa para dentro. Certa vez, o escritor Miguel Sanches Neto usou uma imagem muito feliz para falar da crônica: ela é uma “casa de vidro”, através da qual o leitor pode enxergar a sua intimidade.

Assim é que, já na segunda crônica do livro, quebramos o sigilo eletrônico da cronista e temos acesso a um e-mail enviado ao seu filho pequeno. Trata-se, é claro, de um exercício literário, mas de intenso lirismo e altamente confessional. Aliás, o filho de Ana Elisa é um caso à parte, responsável por alguns dos momentos mais bonitos do livro, seja através das pílulas de “Coisas de menino”, da inocência de “Meu dente (quase) caiu” ou, sobretudo, da avassaladora pureza de “À primeira estrela que eu vejo”. É verdade que crianças costumam facilitar o trabalho do escritor, mas Ana Elisa também conta esses episódios de maneira bastante atraente, a mesma com que se expressa no Facebook, onde é uma das escritoras mais agradáveis de se seguir.

Suas crônicas estão, pois, cheias de familiaridades, afetos e amores. Ela também se entrega a algumas digressões, diálogos interiores, algo parecido com um ensaio feito com sensibilidade, às vezes envolvendo questões de relacionamento, como se separar ou voltar com o ex, e às vezes questões existenciais, como viver a sua vida de novo, sonhar e ter objetivos, aproveitar a rotina, apagar aquilo que deu errado. Tudo com bom senso de humor e pouco senso comum.

Como as crônicas foram escritas originalmente para o Digestivo Cultural, ou seja, um portal da internet, os textos podem ser maiores, e por vezes Ana Elisa ocupou o seu espaço de modo a dividir um mesmo assunto em várias fatias. A partir de um tema inicial, como os chicletes, os canhotos ou o nome dos filhos, a cronista elenca uma série de histórias ou impressões a que ele remete. A estratégia garante fluidez e episódios que escapariam em um texto único.

A cronista também se mostra interessada em dicionários, nas explicações sobre a origem e o significado das palavras, revistas antigas – os dois textos em que comenta sobre um artigo de 1935 com aconselhamentos aos casais são impagáveis. Embora não seja fácil tirar Ana Elisa de casa, isso não impediu algumas viagens (líricas) como a que fez a Diamantina. São quase-nadas que a cronista convida o leitor a enxergar, enquanto divide com ele o espaço da sua casa.

Henrique Fendrich

chicletes

Chicletes, Lambidinha e outras crônicas 

Ana Elisa Ribeiro

Jovens Escribas, 2ª edição, 2015

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