Abandonando as franjas [Rubem Penz]

Posted on 02/10/2015

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Rubem Penz*

Cada vez que meu amigo Martins penteia os fios de cabelo que me restam logo acima da testa em direção aos olhos para cortá-los, o que vejo no espelho do salão é o fiel retrato da devastação. Sobraram-me não mais do que resquícios de uma floresta densa, hoje transformada em pasto ralo. Escombros de uma civilização. Clareira. Cidade fantasma. Por isso, quando afirmo que nada pode ser mais ridículo do que um homem barbado usando franja, pode soar como inveja. Mas é o que passa pela minha cabeça.

Um dos poucos benefícios da calvície nos homens é o de agregar à nossa face um ar inteligente. É um sinal de experiência, maturidade, plenitude. Ficaram para trás os arroubos juvenis com suas cristas elevadas em forma de topete ou moicano, cedendo lugar à ponderação das entradas. O crescimento da testa nos aproxima visualmente de homens como Villa Lobos, Mário Lago, Vinícius de Morais, Millôr Fernandes, Luis Fernando Verissimo… Poucos de nós alcançarão o brilhantismo dos citados, mas a calva ajuda a compor o quadro de aproximação. Mulheres se penteiam, maquiam-se e se vestem para parecerem poderosas e atraentes. Nós, perdemos o cabelo.

Nada contra os rapazes que mantém a vasta crina pela vida afora. Ao contrário: ganham com isso um benefício de grande valor na atualidade – prolongam a juventude. Especialmente se forem figuras públicas, como atores, intérpretes, músicos, jornalistas… Eu mesmo escolheria permanecer por mais tempo com o perfil dos trinta anos, se tivesse a chance. Para esses abençoados, em maioria, a sapiência da idade chega na forma de têmporas brancas, neve que marca o fim de um verão de ingenuidades.

Arriscando uma antropologia de botequim, imagino que a valorização estética e simbólica do amadurecimento masculino, expresso em calvície, por exemplo, tem relação com o fato de ele ter sobrevivido por mais tempo, mostrando-se um forte. Em tempos ancestrais, homens morriam feito moscas por doenças, predadores e guerras. Aqueles que permaneciam vivos não apenas ganhavam sabedoria, como deixavam mais descendentes. Galgavam o respeito dos pares e, assim, a simpatia das mulheres. Competiam em pé de igualdade, apesar de que com armas diferentes, com os machos jovens e viris.

E onde entra a franja nessa história? Simples: tente imaginar um penteadinho Príncipe Valente nos homens citados nessa crônica. Ou, vá além: usando as ferramentas que a computação gráfica permite, coloque simpáticas franjinhas em respeitáveis baluartes da História. Talvez combine apenas nos Césares Romanos, mas deu no que deu. Porém, não precisamos ir tão longe, pois tal recurso usado na foto de nosso avô ou pai traz o mesmo e trágico resultado. O fato é que a maioria avassaladora dos homens fica muito ridícula com esse modelo de penteado.

Minha teoria é a de que esconder a testa infantiliza o homem, mais do que deixá-lo jovem. É como se virasse o fio, com o perdão do trocadilho: ao invés de parecer viril, pareceria imaturo, verde, incapaz. Ingênuo, bobo, covarde. Samurais e outros guerreiros, mesmo ostentando cabelos longos, penteiam-se de modo a revelar a testa – tanto melhor quanto maiores forem suas entradas. Fazer crescer a fronte, além de inteligência, simboliza valentia. Índios chegam a raspar a cabeça, sinal de que algum valor a calvície deve agregar.

Tudo isso passa pela minha cabeça na cadeira do barbeiro e alivia a dor da perda. Também serve de consolo ao ver descer para o corte, valentes e solitários, dez ou vinte fios de cabelo, quantidade bisonha em comparação com outrora. Sim, sim, fui abandonado pela franja. Mas já havia deixado dela antes, ainda na adolescência. Tal penteado só me deixaria mal na foto.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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