O porteiro e o presidente [Daniel Cariello]

Posted on 01/10/2015

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Daniel Cariello*

Bom dia, Seu Antônio. Bom dia, presidente, tá chique hoje! Chique, seu Antônio? Só coloquei uma calça jeans. Então, pra quem vive de bermuda, calça jeans é quase terno. Obrigado, mas pode esquecer essa história de presidente, não mando em nada. Você é presidente da sua própria existência. Quem me dera, seu Antônio. Depois que virei pai, meu poder de decisão sobre minha vida se limita a escolher entre doce de leite ou iogurte na sobremesa. Sei como é, meu filho, mas no meu caso o iogurte já acabou.

Faz tempo que é porteiro? Onze anos. Tenho sessenta e seis. E antes, fazia o quê? Copeiro do Banco do Brasil. Gostava? Gostava, mas começou a cansar as pernas. Aqui é melhor, chego cedo, fico sentado, bato papo e vejo o biguibrod. Vê o quê? O biguibrod, aquela TV ali com câmera pra todo lado, mostra quem entra, quem sai, quem sobe, quem desce, quem chama, quem espera, quem tudo. E dá pra acompanhar? Dá, mas de vez em quando eu tonteio todo de tanta TV e abro a porta da frente achando que é a de trás, a de trás pensando ser a garagem e a garagem imaginando atender o interfone. E é verdade o que dizem por aí, o síndico controla as câmeras da casa dele? Olha, o povo fala de tudo, mas eu não sei de nada. Tá certo. Vou sair. Abre a porta pra mim? Abro, claro.

Seu Antônio, abre a porta, por favor! Seu Antônio, aqui fora. Onde? Agora vi! Obrigado. De nada, mas você não tava aqui agora mesmo, presidente? Tava, mas saí e voltei. Voltou tão rápido que não deu nem tempo de ir. Era coisa simples, só fui comprar um parafuso do outro lado da rua. Pois não precisava, aqui na gaveta tem aos montes. Também tem aos montes lá em casa, menos o que eu preciso. É sempre assim, presidente.

Você de novo, presidente? Voltei, o parafuso não era o certo, ficou solto no furo, não tenho grandes habilidades de bricolagem. E o que colagem tem a ver? Parafuso se parafusa, não dá pra usar cola. Bricolagem, seu Antônio, esses pequenos serviços manuais. Tá certo. Vou trocar ali na loja.

Seu Antônio, tô aqui fora, pode abrir? Ô, presidente, vai desculpando, não te conheci no biguibrod, você tava de lado, não deu pra ver o rosto. Tudo bem, mas a campainha não tá funcionando? Apertei que nem um doido. Ah, o barulho era da campainha, tava pensando que vinha do rádio. Trocou o parafuso? Troquei. Agora, vai.

Presidente, vai me dizer que o parafuso não funcionou. Funcionou nada. Deixa eu ver. Tenho o que você precisa aqui na gaveta. Leva esses dois.

Seu Antônio, seu parafuso resolveu. Toma aqui o que sobrou. Fica de presente, presidente, ainda vai ser útil. Aproveita e joga uns velhos fora. Valeu! A gente adora acumular coisa inútil e aí não sobra espaço pro necessário. E como descobrir o que é necessário, seu Antônio? Ah, isso a gente vai aprendendo, presidente.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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