Amigo tempo [Domingos Pellegrini]

Posted on 28/09/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

O rapazola tocava os pés com as mãos; agora elas só chegam até o meio das canelas.

Obrigado, amigo, por me lembrar que quanto mais a gente se alonga, mais você encurta.

Obrigado por me deixar rever, no álbum de fotos, a carinha bonita que eu tinha aos nove anos…

Obrigado por trazer e levar tantos amigos, me dando a saudade que tanto e nada dá.

Obrigado por me dar netos, eu menino repetido e variado.

Afinal, amigo é para essas ironias: me mostras enfim o menino que deixei de ser e, através dos netos e dos bisnetos e seus filhos e netos, sempre serei.

Obrigado por me deixar chegar a um tempo em que pobre descobre que só trabalhando vai viver bem: é a Bolsa-Tempo…

Obrigado por dar tempo aos erros para se corrigirem, como também tempo aos acertos para não se exibirem, ou já começarão a errar.

Obrigado por domar o garanhão que queria todas as mulheres do mundo, mostrando que só fiel pode merecer a melhor mulher.

Obrigado por curar as feridas e fazer ver com carinho as cicatrizes.

Obrigado por deixar ver que há dias malditos e dias felizes, mas todos são dias a ser vividos.

Obrigado  por ensinar que a melhor forma de merecer é, antes de tudo, agradecer.

Obrigado por mostrar que só o trabalha constrói e o Estado constrói muito menos do que suga, obrigado por ensinar que é vital eliminar parasitas e sanguessugas.

Obrigado, amigo, pelo longo curso que tive com tua filha Paciência, mãe de todas as ciências.

Obrigado pelas orquídeas, que tanto florem com tão pouca terra; e pela hera, que tanto agarra a vida; e pelos urubus que, apesar de comerem carniça, voam soberbos e altivos.

Obrigado, amigo, pela sede, que nos renova o prazer da água, e pela fome, comunhão diária com que nos alentas e nos consome.

Obrigado pelas estrelas, a apontar nossa infinita pequenez, e pela lesma, a nos mostrar sua lerda rapidez.

Obrigado pelo cão que me olha com amor, o passarinho que saltita na grama, as nuvens que, sem parecer que mudam, mudam sem parar.

Obrigado pelo olhar de ternura da minha mulher, o choro obstinado do bebê, o aperto de mão caloroso, o afeto sincero, o tropeço oportuno.

Obrigado pelo poente rubro, onde descubro paz de repente.

Obrigado pela linguagem que nos deste, lá no tempo das fogueiras e das cavernas, e que hoje lançamos ao mundo pela internet.

Obrigado por mais este dia, pela graça da poesia, e pela fumaça com cheiro de café torrado da chácara vizinha.

Obrigado por tudo e por cada coisinha, pela xícara trincada e pela jóia perfeita, tudo que foi e tudo que será feito.

Obrigado por existires, amigo, ou nada existiria. Fica com Deus, ou melhor, sejamos Deus, nas suas tantas formas de ser.

Obrigado, Tempo, pelas trevas e pela luz, inseparável amigo que para além do tempo nos conduz, obrigado.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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