Aos mestres do assédio [Mariana Ianelli]

Posted on 26/09/2015

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Mariana Ianelli*

E aqueles crimes que permanecem impunes toda vida? Às vezes, mais do que para sempre: crimes que ficam sepultos. Paga a pena quem os sofre, alguns por muito tempo sem nem saber que sofrem, tão ambíguos esses crimes e quem os sofre, todos contra “o preto no branco”, contra a violência exposta, contra medidas drásticas, que o êxito da impunidade é ter suspenso o véu da dúvida, balançando de leve, confundindo, porém firme, insistente, como a sombra sem idade do molestador sem rosto no fundo de um cinema com suas prestidigitadoras mãos de pluma, ou como aquilo que se infiltra, que vai penetrando, colonizando em doses domésticas diárias ministradas com cautela, tanta cautela que o picado, brandamente invadido, semiamortecido, por pouco não se sente grato, quase acarinhado, sim, esses crimes que grassam onde grassa a omissão, como num casamento fechado, para nenhum convidado a não ser uns olhos de animal, um par de luzeiros selvagens para assistir a conluios, enredos da terra, teias de aranhas humanas, arapucas para as bobas almas boas de criança, e de pensar quantos crimes sem denúncia os bichos deste mundo testemunham, com seus olhos coloridos, suas pupilas dilatadas, quantas sombras no escuro já distinguiram os olhos da velha coruja, os olhos dos gatos dos becos sujos, os olhos dos cães de apartamento, como olhos de deuses sutis, mestres do assédio lá onde vale o véu da dúvida, deuses sutis que assistem a tudo, também impunes, tão ambíguos quanto os crimes sem castigo e quem os sofre, confundindo, porém firmes, insistentes, como a sombra sem idade do molestador sem rosto, no fundo de um cinema, com suas prestidigitadoras mãos de pluma.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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