Cigarros, palitos de fósforo e azeitonas

Posted on 24/09/2015

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Não bebo. Também não fumo. Nunca foi necessário parar com nenhum dos vícios porque a inabilidade para adquiri-los era muito grande. No passado bebia socialmente, porém, com dificuldades. Nunca gostei. Hoje, com poucos goles de bebida alcoólica entro num sono profundo. Faz muito tempo, era mês de julho, como agora, férias da escola. Baladas de adolescentes, festinhas, encontros constantes e diários porque no outro dia não tinha aula. Era chique fumar. Moderninho, na época. Área para fumantes, campanha contra o fumo, uma vida sem tabagismo era algo fora de moda, cafona. Quem não fumava, como eu, nada ousava citar para estragar a alegria da galera da fumaça. O mundo era dos fumantes e de seus simpatizantes.

Batom, unhas feitas e o biquinho para expelir a fumaça faziam a cena constante na vida noturna. O cheiro me dava enjoo. Numa das típicas imbecilidades da juventude, certa noite, chegou minha vez de aderir. Ganhei todo o kit, aulas práticas e teóricas, assistência técnica pós-experiência. Escolhi um cigarro de cravo, Gudang Garam (você aí que fuma, é assim que escreve?). Algumas tentativas de tragar a fumaça, engasgamentos, enjoos, tosse. Vomitei por horas, intoxicada. Assustadas, as colegas nunca mais insistiram e nem tocaram no assunto.

Se alguém entrava no ônibus fumando ou com cheiro de cigarro, minha avó rapidamente pegava a toalha guardada na sacola, junto com o kit ante vômito e colocava na minha boca. Nem pensávamos numa “sacolinha”, mas seria a melhor e mais óbvia opção. Faziam parte do kit palitos de fósforos e um vidro de azeitonas. A simpatia: viajar, todo o trajeto, com as duas mãos fechadas segurando palitos de fósforos. E também ir comendo azeitonas durante a viagem (eram dadas na boca, já que as mãos estavam fechadas segurando os palitos). Tudo para não enjoar, mas, quando o cigarro entrava em cena, tanto os palitos quanto as azeitonas iam por água abaixo. Se a viagem era longa, chegava ao destino tão pálida e desnutrida que quase era necessário uma internação.

Vez ou outra, andando na rua, o sofrimento volta à tona. Quando avisto um fumante vindo em minha direção puxo todo o ar que consigo e a respiração fica trancada, até que o fumante e sua acompanhante fumaça passem. Logo em seguida solto o ar e respiro normalmente. Nem sempre dá certo e o estômago começa a embrulhar, com o cheiro. Palitos e azeitonas, por favor!

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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