Ao vencedor, as batatas de frango [Daniel Cariello]

Posted on 24/09/2015

1



Daniel Cariello*

– Quer batata?

A pergunta era pra ser simples, mas revelou-se de uma inesperada complexidade.

– Quero.
– De quê?
– O quê?
– Quer de quê? Tem de frango assado de vitrine, de maminha mal passada puxada no alho, de salsa e cebolinha orgânicas, de pernil ao abacaxi e, última novidade e exclusividade da nossa companhia, de peixe frito com tomate, uma delícia!

Eu demorei entender se a aeromoça estava me oferecendo um prosaico pacote de batatinha ou tirando sarro da minha cara, recitando a um habitante da classe econômica o cardápio da executiva.

– Cumequié?
– Tem de frango assado de vitrine, de maminha mal passada…
– E a batata?
– Então. Esses são os sabores disponíveis, senhor.

Já faz algum tempo que abandonei as batatas fritas de saquinho como a base da minha nutrição, e percebo que não acompanhei as variações pelas quais o produto passou. Como os malditos panettones, elas sofreram mutações e agora vêm em sabores tão diversos quanto improváveis. Tornaram-se verdadeiros gremlins alimentares.

– Moça, não tem batata sabor batata?
– Não entendi.
– Aquela simples, sem nada, só a batata frita com sal, como antigamente.
– Sei não. Peraí que eu vou ver.

Pela expressão de espanto da aeromoça, deduzi que a palavra “antigamente” soava para ela como “na época de Ramsés II”. Ou em um tempo muito distante onde as pessoas – imaginem só! – alimentavam-se de bizarrices inimagináveis nos dias de hoje, do tipo batata com gosto de batata, água sabor água e pizza sem ketchup.

– Senhor, achei isso aqui, ó. Vê se serve.

E me esticou um pacotinho brilhante, onde lia-se “sabor muzarela de búfala light com alecrim”.

– Só tem isso?
– Não, tem também de frango assado de vitrine, de maminha mal passada puxada no alho, de salsa e cebolinha…
– Sabor batata não tem mesmo, né?
– É claro que não, senhor.

É claro que não. Que ideia mais maluca a minha.

__________

Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

Anúncios
Posted in: Uncategorized