Marques Rebelo, um diabo do bem

Posted on 23/09/2015

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Ah, Marques Rebelo, esse pequenino diabo perturbador! Assim lhe qualificou, com muita justiça, um dos personagens com quem se encontrou na Tchecolosváquia em 1954. Mas não era de todo uma crítica,  afinal, o escritor brasleiro era um “diabo do bem”, que fazia muitos amigos, e que sabia ser justo, a despeito do seu acentuado senso crítico. E como era do tipo que duvidava das propagandas oficiais, a leitura de suas crônicas de viagem ao leste europeu, reunidas no livro “Cortina de Ferro” (José Olympio, 2014), se torna ainda mais saborosa.

Naquele ano, o escritor havia sido convidado a participar de uma reunião do Conselho Mundial da Paz, em Estocolmo, e de um congresso de escritores soviéticos em Moscou, aproveitando também para fazer uma visita à antiga Tchecolosváquia. A viagem rendeu crônicas que foram publicadas na “Última Hora” e lançadas em livro dois anos depois, e seria realmente uma pena se não tivessem ganho uma nova edição. Perderíamos uma prosa fina, o lirismo arrebatador das primeiras crônicas, e uma ironia tão sutil quanto certeira que permeia todo o livro.

A verdade é, embora tenha viajado para participar de eventos oficiais, Marques Rebelo estava bem pouco interessado no seu conteúdo. Em Moscou, por exemplo, ele preferia andar pelos corredores do palácio em que se reuniam os escritores do que ouvi-los falar – para desespero da sua guia. O escritor estava mais interessado nas histórias que tinha a lhe oferecer aquele mundo pós-guerra. No caso da Tchecolosváquia, faz um admirável registro das esperanças que encontrava pelas pequenas aldeias por onde passou, todas renascendo para um novo tempo.

Além de levantar histórias, dados e personagens dos lugares por onde passava, o escritor, vez ou outra, se via obrigado a fazer comparações com o Brasil, onde poucos meses antes havia se suicidado Getúlio Vargas. É digna de nota a crônica em que um europeu tem a oportunidade de ler um jornal brasileiro. Eles mesmos, mal noticiavam sobre o Brasil em seus jornais – a não ser quando assinava um acordo com os Estados Unidos ou o custo de vida aumentava 300%.

Às vezes essas comparações entre países geravam algum desconforto e cenhos franzidos, até porque Marques Rebelo adotava a máxima “não custa nada irritar um pouquinho os interlocutores para ver até que ponto possam deixar de ser interlocutores”. Mas o irritado também podia ser ele, afinal, não era nada fácil justificar perante um europeu as taxas de analfabetismo do Brasil à época, ainda que ele, como bom patriota, tenha reduzido para 50%.

Além de não se limitar a descrever, pois também promove diálogos com agilidade, o escritor ainda mistura ficção ao relato de sua viagem, criando diabólicos personagens que lhe servem como guia em Moscou: Demon Satanov, Belzebuv Capetovich e Lucifer Ilitch Diabonov. Essa experiência deixa o livro ainda mais divertido e conduz à ironia final, em que todas as mazelas do Brasil são explicadas pela presença de agentes moscovitas infiltrados. Ainda que a Guerra Fria tenha passado, as dicotomias que o livro revela não parecem tão distantes da nossa realidade.

Henrique Fendrich 

cortinadeferro

Cortina de ferro – Marques Rebelo

José Olympio Editora, 2014

208 páginas, R$ 32,90

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