O pôquer que evitou uma guerra [Luís Giffoni]

Posted on 19/09/2015

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Luís Giffoni*

Eu passava as férias com a família num hotel em Puyehué, no Sul do Chile, na divisa com a Argentina. Tempo de ditaduras. Tempo de tortura, disputa e arrogância. Num fim de tarde, a situação degringolou. De um lado e outro, os generais ameaçaram invadir e aniquilar os vizinhos. Ocupado com passeios, eu ignorava que havia uma guerra iminente entre o Chile e a Argentina. Ao descobrir, estremeci, temendo virar picadinho, junto com os filhos. O gerente do hotel, para me tranquilizar e afastar qualquer possibilidade de perigo, convidou-me para uma rodada de pôquer, numa cabana perdida nas encostas dos Andes. Só descobriria quem eram os dois outros parceiros na hora do jogo. O que uma coisa tinha a ver com a outra? Ressabiado, aceitei.

O gerente e eu viajamos numa estrada de terra, quase atolando a cada dez metros. Após uma hora no meio da floresta, numa subida sem fim, chegamos à cabana. Nem bem nos assentamos ao redor de uma mesa feita com tronco de pinheiro, entra Carlos. Apresenta-se: é o comandante das forças armadas chilenas na região. Traz várias garrafas de Old Parr e coca-cola. Diz que o uísque fora confiscado de contrabandistas de fronteira e deveria ter sido enviado para Pinochet, mas – ele não entendia como – várias caixas tinham ficado para trás, e precisávamos consumi-las antes que perdessem a validade. Além disso, detestava Pinochet.

Rindo muito, pediu minha ajuda para esvaziar a primeira garrafa. Imbuído de nobre espírito de latinidad, concordei. Carlos apreciava a bebida misturada ao refrigerante, meio a meio, um desperdício. A pecaminosa combinação tinha nome: chipe, ou algo parecido.

Ao final da terceira dose, escuto roncos de tanque de guerra. Começo da invasão? Delírio etílico? Nada disso. Num blindado leve, chega o misterioso companheiro que faltava. Pois não é que o dito cujo era justamente o comandante das forças argentinas? Os dois homens que, de acordo com os jornais e a boataria, deveriam trocar tiros e bombas no dia seguinte, passariam a noite jogando pôquer e bebendo uísque. Tinham se tornado amigos depois de apresentados por Fernando, o gerente do hotel, numa festa de aniversário. A amizade, entretanto, não podia vir a público, senão lhes comprometeria a carreira, ainda mais diante do clima de tensão existente entre Santiago e Buenos Aires. Daí tanto segredo, daí a preferência por estranhos, sobretudo estrangeiros, para completar o quarteto de blefadores.

Jogamos até de madrugada, enquanto debulhávamos piadas e casos de nossos três países. Levantamos os copos a cada gargalhada. Juanito, o militar argentino, morreu de rir quando lhe contei que seus compatriotas, para suicidar, pulam do alto de seus egos.

Ajudados pela mediação escocesa, reviramos nossa latinidad, nosso caldo cultural com idênticos temperos, nossas raízes comuns, nossos mesmos tiques, nossas visões sobre a vida que, no fundo, coincidiam.

A guerra entre o Chile e a Argentina jamais aconteceu. Perdeu o ímpeto quando os dois protagonistas se uniram numa mesa de jogo, regada a uísque confiscado.

Para mim a Rodada de Puyehué teve gosto especial: ganhei dos três.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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