Certidão [Daniel Cariello]

Posted on 17/09/2015

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Daniel Cariello*

Na fila do cartório, ele achou que a havia visto. Mas não, não podia ser. Diziam que ela se mudara pra outra cidade. Outro país, até. Ele escutara boatos de que ela teria entrado em um convento ou virado aeromoça, o que pra ele dava no mesmo.

Mas era incrível, o nariz era muito parecido com o dela, aquela curvinha arrebitada. Ele se lembrava bem do nariz, ponto proibido de tocar, terminantemente interditado, pois ela sentia muitas cócegas.

– Vinte e nove, vinte e nove, quem é o vinte e nove?

A funcionária do setor de autenticação olhava com ar desolado aquele amontoado de gente, provavelmente sabendo que chegaria mais uma vez tarde em casa. E ele, geralmente solidário com a miséria alheia, ao menos na intenção, não estava preocupado com a novela que a atendente perderia naquela noite. Seu pensamento, bem como todos seus sentidos, tinham um único alvo: a moça da fila, localizada sete ou oito posições à frente.

Ela soltou os cabelos presos. O movimento era idêntico ao de quinze anos atrás, mas o comprimento das madeixas havia mudado. Antes, chegavam no meio das costas. Agora, mal passavam a linha do ombro.

Puxa vida, já faz tanto tempo, ele pensou, e tudo durou exatamente três anos, dois meses, quatro dias e duas horas cravadas. Ele sabia os números, datas, lugares, canções e sabores de cor. Só não sabia, nunca soube, por que tudo havia acabado.

Ela se virou para buscar um papel no fundo da bolsa e ele teve certeza de que era realmente seu antigo amor. Estava tão linda quanto em sua lembrança congelada. Os mesmos olhos um pouco puxados e estrábicos, a mesma boca carnuda, escondendo uma arcada tão perfeitamente alinhada que poderia figurar em um comercial de pasta de dentes, as mesmas sobrancelhas cuidadosamente alinhadas, as mesmas três argolas em uma orelha e duas na outra. Tudo exatamente como antes.

– Trinta e dois, o trinta e dois tá aí?

Era ela o trinta e dois. Tirou um envelope e entregou pra moça copiar e autenticar. A atendente resolveu tudo de forma eficiente e automática, como os funcionários dos cartórios geralmente fazem. Não sorriu e nem fez cara feia. Entregou o pacote de volta, uma notinha para o pagamento e retribuiu o agradecimento.

– Trinta e três, cadê o trinta e três, hein? Trinta e três.

Ele não poderia deixá-la escapar sem antes falar algo, qualquer coisa. Quando pensava em como iria abordá-la, ela tropeçou, como sempre fazia, e esparramou os papéis pelo chão. Ele, mais do que depressa, abaixou-se para recolhê-los. Ela também. Ele pegou antes o documento autenticado.

– Certidão de casamento? Você casou?

A frase saiu em voz alta. E no mesmo instante seus olhares se cruzaram. Ela, que ainda não o havia visto, descobriu-o com um misto de surpresa e horror. Ele, que não sabia da nova vida de sua eterna amada, permaneceu petrificado. O que os dois pensaram nesse átimo só eles sabem, mas ela juntou desordenadamente a papelada e apressou-se em alcançar a porta de saída.

Pela parede de vidro ele a viu enxugar uma lágrima. E ela nem percebeu que a certidão ficara com ele.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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