Vencer, vencer, vencer e enfim dormir [Marco Antonio Martire]

Posted on 16/09/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

Tem coisas que só o Flamengo consegue.

Aconteceu no último domingo. Passei o final da manhã preparando um churrasquinho básico, na mão algumas cervejas. Almocei bastante, encerrei os trabalhos, lavei a louça e fui assistir jogar o Flamengo do meu coração. O jogo iniciava às 16 horas.

Ainda bem que não era quarta-feira. Quarta-feira o jogo é sempre depois da novela, quer dizer que termina à meia-noite. O que fazer quando seu time perde nas quartas-feiras? Deitar na cama e dormir o coração apertado não deixa. Fico perdido entre os canais, obviamente não vou nos programas de esporte, a irritação resiste feito dona do corpo. Não desejo para ninguém dormir com um condenado assim, transar sempre é possível, mas com amor? Depois não reclamem.

Meses atrás o meu Flamengo dava dor de cabeça nas tardes de domingo e nas noites de quarta-feira. A má fase era notória. Eis que mudam o técnico e o time engrena uma fase vitoriosa que deixa o mundo mais bonito. O céu agora amanhece para mim pintado de vermelho e preto.

Quem me conhece sabe: não sou o cara que chega junto da galera zoando o rival cujo time perdeu no dia anterior. Dizem que faz parte do futebol zoar o amigo que torce para outro time. Levo na brincadeira. Mas não costumo mexer com quem está quieto, deve ser o meu senso de autopreservação. Tem time que vai tão mal das pernas que imagino o desconforto acumulado nesses corações maltratados pela sorte.

Voltemos ao jogo do último domingo, depois do churrasco e das cervejas. O início da partida se aproximava e a adrenalina cumpria o seu papel: fiquei ligado, atento à entrada da equipe, atento à escalação e aos comentários. Nessa hora uma energia intensa vem do estádio e atravessa as câmeras rumo ao torcedor na expectativa. Não existe celular, conversa, não há problemas na Terra. Só existe o Flamengo em ação. Queremos saber se o time vai corresponder em campo ao tamanho da nossa paixão. É assim desde criança, será assim até o dia em que formos velhinhos. Nosso grito de gol ecoa pela eternidade.

No jogo o Fla mostrou logo que era superior. Não demorou e fez o primeiro gol, mais uns vinte minutos e fez o segundo. O time dominava a equipe adversária com autoridade. Fiquei tranquilo, nasceu em mim aquela sensação gostosa de que o mundo girava no seu devido lugar. A Terra ficou confortável. A cabeça então pesou, a carne e as cervejas assentaram enfim no estômago. Em minutos eu tirava um perfeito cochilo.

Critiquem o meu sono justo na hora do jogo, mas posso dizer que não há prova de maior confiança no time: tirar aquele perfeito cochilo antes do fim do primeiro tempo. Em paz com o futebol. Dormir assim só em jogo do meu Flamengo. Esqueci totalmente as insônias das quartas-feiras. Acordei com a vitória já assegurada, livre da mais remota ressaca. O leitor que torce para outro clube e que chegou até aqui, determinado e firme diante desta crônica, fique tranquilo que o poupo dos sonhos que tive nessa tarde de bom sono. Nós rubronegros vencemos, eu sei que o futebol é uma caixinha de surpresas, domingo vencemos, na quarta-feira ninguém sabe. Mas no sono talvez de alguma forma eu soubesse. Uma fé delirante me ninava.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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