O bets não morrerá! [Domingos Pellegrini]

Posted on 14/09/2015

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(Imagem: Aridiny Giraldi) 

Domingos Pellegrini*

Vejo tevê quando ouço o ruído inesquecível de tacos batendo depois de gritaria. A gritaria é sempre quando lançador acerta a casinha adversária, ou quando rebatedor rebate a bola para longe. Enquanto o lançador vai buscar a bola, os dois parceiros rebatedores cruzam correndo de uma casinha para outra, batendo os tacos e fazendo pontos, e é isso que ouço, pensando porém que não é possível.

Mas, na rua, me vejo diante do jogo que joguei em ruas de terra, e agora aqui está na rua de asfalto, relíquia viva. “Bet” em Inglês é bastão, e cogita-se que o jogo foi trazido por ingleses, que jogavam cricket nos convés dos navios. Aqui, virou esse jogo que era mania dos moleques a.T. (antes da Tevê), e só perdia em animação para o pique-salva.

Como a bola rebatida corre longe no asfalto, tenho tempo de contar ao rebatedor que, “no meu tempo”, a gente usava bets de cabo de vassoura. Ah, diz ele, cabo de vassoura quebra fácil e é muito leve pra dar batida boa.

Conto que os cabos eram encapados de borracha numa ponta, para dar boa pegação, e enrolados com couro na outra ponta, ganhando peso para bater forte.

Quando passa carro, eles tem de parar o jogo. E é preciso tapar com tábua o bueiro, que não existia nas ruas de terra mas agora engole bola. As casinhas de três paus empilhados em pirâmide agora são garrafas pets. Os tacos são pedaços de tábuas rachadas ou ripas. A bola é uma leviana enganação chinesa, sem a dignidade das bolas de tênis que a gente ia buscar nem que fosse em quintal com cachorro bravo: alguns distraíam o cachorro, um corajoso pulava o muro e catava a bolinha; moleque é bicho endiabrado, diziam as avós.

Mas eis que o bets aqui diante de casa é jogado por rapazolas, marmanjos e até uma senhora! E eu, que há mais de meio século troquei o bets pelo basquete e a rua pela piscina, fico pensando em como tanta coisa mudou mas uma coisa não muda: dentro de nós sempre viverá um moleque. E é por isso que o jogo de bets não morreu, como também não o pião, o bilboquê, a bolinha de gude, o estilingue, a espada de madeira e o ioiô. Na internet, vejo que vendem bastões e casinhas de bets, industriais, quem diria.

Quando os netos vierem à chácara, farei tacos e iremos para o platô do vale. Eles perguntarão porque não estamos levando bola de futebol, e direi que vou lhes ensinar um novo jogo. Ou melhor, um velho jogo. Se depender deste velho moleque, o bets não morrerá!

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM escreve às segundas-feiras. 

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