Falsas sabedorias e algo mais [Raul Drewnick]

Posted on 13/09/2015

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Raul Drewnick*

Aos velhos a vida concede a falsa sabedoria de julgarem o amor dispensável, quando ele vem a lhes faltar.

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Se o amor não é mais a medida de todas as coisas, lhes digo que todas as coisas estão erradas.

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No campo de batalha, o Amor examina os que morreram por ele. Foi uma boa geração. Bravos rapazes, corajosos meninos. Pelo estado dos corpos, horrivelmente mutilados, o Amor vê que lutaram com heroísmo. E no sorriso morto de cada um sente o que vem sentindo há milênios: morreram felizes. Trazido pela curiosidade, um grupo de meninos e garotas olha para os combatentes derrotados e, em seguida, para o Amor. É uma troca de olhares que assegura ao tirano: seu reinado está garantido. Os urubus esvoaçam, felizes.

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Chamar de louco um homem apaixonado é a mais tola das obviedades.

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Quando a mulher do defunto pôs no seu paletó um lenço, naturalmente estranharam. Um dos filhos perguntou: “O que é isso, mãe?” Ela o olhou com severidade: “Você sabe muito bem como o seu pai se resfria fácil.”

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Quando ela sorri, ele só lhe vê os dentes. Conhece esse tipo de mulher, cuja língua se revela apenas no quarto, quando a luz se apaga e um corpo se torna enfim uma superfície plenamente explorável.

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Ela instilou nele um ciúme tão insano que uma noite, procurando como sempre evidências de traição, ele, encontrando na cama uma casca de noz, julgou tratar-se do dente postiço de um marinheiro.

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Quem nunca fez declarações de amor não sabe as tolices que perdeu.

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É tão aborrecido o amor. Tudo sempre igual, sempre as mesmas histórias. Ainda há quem goste de ouvi-las.

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O poeta morreu atropelado por um ônibus da Viação Flor de Lis, na avenida Rouxinol, esquina da alameda das Rosas. O que estragou um pouco a notícia foi o poeta chamar-se Sigismundo Pinto de Carvalho.

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O primeiro a ver o poeta foi um cachorro. Chegou, cheirou e concluiu logo que o defunto não era grande coisa. Não precisou ler os versos que estavam no bolso.

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“Não adianta, eu já avisei. Agora eu sou da escola modernista”, disse o poeta às estrelas, que não o deixavam em paz.

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A autópsia revelou que o poeta morrera de perfurações estomacais causadas por fragmentos pontiagudos e brilhantes, depois de comer ovos estrelados.

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Proibiram a entrada de poetas na cidade. O último que lá esteve sumiu com quarenta e uma estrelas – as mais belas, segundo o jornal da região.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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