Coisas que existem [Mariana Ianelli]

Posted on 12/09/2015

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Mariana Ianelli*

Paus-de-arara, damas-de-ferro, rodas de Santa Catarina, esmaga-cabeças, maricotas. Experimentos com gêmeos. Testes com coelhos, testes com macacos. Ratos de laboratório. Rodeios, danças de matar, touradas. Pinguins do Pacífico no aquário do Guarujá em vitrines com tanques d’água e ar condicionado. Leões de circo. Baleias adestradas. Gente sorrindo sentada no alto do lombo de gigantescas carcaças. Gente sorrindo com o troféu de um tubarão-branco arpoado. Focas e guaxinins esfolados. Churrasquinho de gato. As águas tradicionalmente vermelhas como praga bíblica todos os anos na praia de Tórshavn. O festival de sangue dos porcos em Nem Thuong. Brigas de cães treinados para brigar, octógonos, gaiolas, rinhas de galo. Cavalos espancados em São Petersburgo, em São Gonçalo, em Wiccklow Town. Vira-latas capturados ao acaso, espremidos em engradados, vinte mil rúpias cada, direto para os restaurantes típicos de Bali. Pássaros exóticos enfiados em tubos de plástico. Caranguejos vivos hibernando a 5º C em máquinas automáticas nos metrôs de Nanjing. Forcas, paredões de fuzilamento, guilhotinas, fogueiras, câmaras de gás, cadeira elétrica ou Midazolam nos coquetéis mortais da prisão de San Quentin na Califórnia. Bombas de todo o tipo. Arsenais de armas tóxicas. Tanques de guerra, canhões, camburões, tropas de choque, granadas, porretes, sprays de pimenta. Cerca e posto de guarda nas fronteiras, muros da vergonha, altos e longos diques para impedir o fluxo humano entre gregos e turcos, sérvios e húngaros, americanos e americanos. Solitárias. Sanbenitos. Letra escarlate. Soco inglês, mordaça, chibata, argola de espinhos, coroa de espinhos. Linchamento. Lapidação. E as explicações mais ou menos indecentes, as malfadadas desculpas, o cortejo autoenvergonhado de argumentos que encontramos para a existência dessas coisas.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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