Aprendendo [Madô Martins]

Posted on 11/09/2015

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Madô Martins*

A vida sempre me ensina de forma sutil, paciente, maternal. Nunca grita em meus ouvidos: “acorde!”, mas aconselha “mexa-se”. Põe em meu caminho pessoas preciosas que me afirmam “mudança é vida” ou “dê-se o direito de dizer não”, lições que só apreendi depois de adulta. Ou me faz descobrir coisas óbvias no dia a dia. Sem esquecer das noites em que me oferece sonhos, contando-me parábolas.

Não engula sapos

Durante anos, acompanhei as preleções de um médico argentino que, mais do que ajudar a ter saúde, ensinava a plateia a ser feliz – lo que no es lo mismo pero es igual. Aos poucos, me fez perder o medo de ousar mudanças, e assim consegui tocar a vida com coragem, contando comigo antes de tudo.

A aula mais difícil foi a sobre dizer não. Fui educada a sempre concordar com os outros, evitar conflitos e, em consequência, ser simpática a todos. O não, naquela cartilha, seria uma grosseria imperdoável. Comecei a perceber que é possível dialogar com opositores sem perder a fleugma nem ceder. E a partir daí, os amigos me achavam diferente, sem deixar de me querer bem. A essência de cada um nos unia desde sempre, só precisava ser mostrada.

Adquiri também a atitude de descartar pessoas e hábitos que não me faziam bem. E a vida passou a ser bem mais verdadeira.

Você pode

O relógio da parede estava parado há semanas. Gostava dele, foi amor à primeira vista quando o notei na vitrine e comprometi as economias para ter em casa um relógio de estação, daqueles redondos com duas faces, apoiado num suporte de ferro. Quando as pilhas acabaram, a troca exigia uma operação delicada: usar a escada, vencer a força da tranca de metal sem usar ferramentas, para não ferir a parte externa, acertar os ponteiros rapidamente, porque o tempo não para, como dizia Cazuza, e um lado poderia ficar defasado do outro, cada um marcando uma hora diferente.

Vencidas todas as etapas, olho para os dois visores e… nada. Refiz a operação, sem sucesso: ali as horas não passavam mais. Conformei-me em ter apenas um belo objeto de decoração, inútil como a maioria. Felizmente, quase não recebo visitas, assim não precisei responder muitas vezes se o relógio funcionara algum dia.

Numa tarde ociosa, enquanto a chuva desabava lá fora, mantendo-me prisioneira, resolvi voltar ao relógio. Queria mesmo, carinhosamente, desvendar seu mistério, restaurar seu mecanismo – logo eu, também em pane interna, com peças emperradas e parafusos frouxos.

Novamente na escada, abri sua caixa e retirei as quatro pilhas, duas de cada lado. Experimentei recolocá-las com as extremidades em posições opostas e voilà! O ponteiro dos segundos corria como maratonista, colocando um sorriso em meus lábios: o podium era meu…

Conheça-se

Noite dessas, tive um sonho revelador. Todos são, mas muitas vezes não percebemos suas mensagens. Era um feriado de verão, com muito sol, calor e a cidade cheia. Cheguei com o carro à rua onde morava e custei a acreditar na vaga que me esperava, bem perto de casa. Não queria coloca-lo na garagem, pois pretendia sair em seguida: a ideia era subir logo para o quarto, colocar o biquíni e disparar para a praia, juntando-me àquele povo alegre e agitado.

Manobrei rapidamente e, ainda com as chaves na mão, precisei interromper os planos por instantes, para dar atenção ao vizinho que me convidava para uma festa à noite. Depois, apertei o passo, para aproveitar ao máximo as horas de sol.

Quando voltei à rua, porém, não encontrei o carro. Segui a pé toda a calçada, de esquina a esquina, e o que vi foi apenas a mesma vaga, outra vez disponível. Resolvi dar a volta no quarteirão, quem sabe tivesse me distraído e deixado o veículo na rua de trás…

Observei para onde iam os carros, para não entrar na contra-mão. E engatei a primeira, quando a fila à frente começou a andar, ainda angustiada. Só acordada percebi que não podia achar o carro… porque estava nele.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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