Esforço heroico [Daniel Cariello]

Posted on 10/09/2015

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Daniel Cariello*

Igreja da Penha. São 382 degraus. Trezentos e oitenta e dois! Onde estava com a cabeça quando fiz essa promessa? E ainda adiantada? Nunca vi isso, pagar antes do milagre realizado. Fui empolgando e, quando vi, já tinha me comprometido, na frente de todo mundo. Agora, tenho que cumprir. Tentei negociar subir a pé, de costas, de cachorrinho, fazendo moonwalk, lendo Paulo Coelho em albanês, batendo uma maionese, mas eles não quiseram saber. “Nada disso, de joelhos!”, decretou o Julinho. “Assim, a promessa tem mais força. E você sabe bem o quanto estamos precisando”. Tá bom, vamos começar. Espero que o sacrifício valha a pena.

Degrau 135. Ainda restam 247 e o fôlego já tá rareando. Minha calça rasgou nos dois joelhos. Ô, de cima, anota aí. Isso deve valer um bônus. “Penha, Penha, eu vim aqui me ajoelhar”, cantava Luiz Gonzaga, todo pimpão, na maior alegria. Du-vi-do que tenha subido. Escadaria no joelho dos outros é refresco, né?

Duzentos e setenta e seis. Tem mais de 100 pela frente. E para cima, o que é pior. Quero minha mãe. Quero a virgem Maria. Quero a Gisele Bündchen. Aliás, mereço a Gisele Bündchen me fazendo cafuné. Ela pode até me puxar com uma coleira, contanto que me ajude a escalar. Ei, olha lá: eu sofrendo e aquele carinha ao lado subindo plantando bananeira e na maior velocidade. Nem sente. Acho que o conheço. Será?

Trezentos e setenta e oito. Faltam 4! Quatro longos degraus. Vale se eu me arrastar como uma lagartixa? Posso usar o queixo pra me puxar? Eu só quero chegar. Depois, desço rolando, nem me importo.

Três. Não sinto minhas pernas. Não sinto meu tronco. Não sinto minha cabeça. Sinto saudades da Dona Creuza, que nem sei quem é, mas com certeza está em situação melhor que a minha.

Do-is. O da bananeira já chegou. Ele está fazendo flexões com três crianças nas costas? Devo estar delirando.

Um. Força. Cheguei… Meu cérebro vai…

Ele apaga e acorda duas horas depois, cercado de curiosos. Um desconhecido o aborda. Ele toma fôlego pra responder.

– Tá bem?
– Acho que sim.
– Você chegou e desmaiou. Espero que a promessa tenha valido a pena.
– Vai valer. Tem que valer… Vim em nome de toda a nação brasileira. Pedindo para o Hulk não voltar à seleção.
– Hulk, aquele ali, fazendo embaixadinha com uma estátua de bronze? Ele chegou mais cedo, veio agradecer pela nova convocação do Dunga. Ei, vai aonde?

Ainda deitado, ele se dobra, como se fosse uma bola, e sai rolando escadaria abaixo, enquanto canta o hino alemão.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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