Altura [Elyandria Silva]

Posted on 10/09/2015

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Elyandria Silva*

Difícil medir o medo que se sente das alturas, assim como não se pode medir os milhares de metros de altura naqueles locais onde a vertigem e o “frio na barriga”, prejudicam a apreciação das mais belas vistas. Um voto de admiração aos corajosos, que sobem centenas de degraus ou embarcam num elevador panorâmico – no qual a subida transforma tudo, rapidamente, minúsculo aos olhos – para, contemplar paisagens que tornam-se ainda mais belos lá de cima. Ou para tirarem selfies corajosas, ou pedirem para um desconhecido eternizar o momento, com a beleza detrás de si. Sem nenhum pavor.

Vem alguém e o empurra, ocasionando uma morte trágica. O corpo estatelado em algum ponto de azar, com curiosos, em estado de choque, ao redor.

Um desequilíbrio momentâneo, ou talvez uma tontura inesperada, e o desfecho é o mesmo: uma queda fatal. Tudo pode acontecer, não é mesmo?

É isso o que sinto, imagino que pode vir a me acontecer, quando estou em lugares altos, ou muito altos. Parece que vou despencar lá de cima a qualquer momento. Vindo de pessoa que não sofre dessa fobia “Nossa!! Mas desse jeito quando for a Paris você não vai subir na Torre Eiffel!” Não sei, talvez não, depende… Já disse, muitas vezes, que não subiria em determinados locais, mas na hora o medo perde, a coragem fantasiada vence.

Só apreciei pequenos trechos da vista, pela fresta dos olhos. Um dia lindo, de céu azul, um cenário bem clichê, mas perfeito. Não foi o suficiente para eu conseguir curtir cada momento, no bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, há muitos anos atrás, com a sensação de estar pendurada no ar. Só pensava em voltar para terra firme logo. Cristo Redentor, foi bem melhor, mas na hora de tirar as fotos, encostada no muro, nas pontas, lá vinha o fantasma do despencamento de novo.

Não é só a presença real, no local, que traz problemas. No filme King Kong são muitas as cenas horripilantes para quem tem fobia de altura. O gorila fica segurando a loira na mão, como um pequeno brinquedo, sentado à beira de penhascos, no alto de montanhas gigantes, no topo de um prédio arranha-céu – no final, quando é atacado e morto a tiros – com a tranquilidade que é peculiar à sua espécie. Os outros personagens passam por ponte pênsil, que parece solta no ar, e correm por caminhos sinuosos, sob precipícios, lutam com inimigos à beira de penhascos. Com “frio na barriga”, e sem poder olhar muito algumas cenas, assisti a tudo como se fosse cair, junto com eles, a qualquer momento.

Paisagens magníficas, quase não dá para acreditar no que os olhos veem. A Costa Amalfitana, na Itália, é tão esplêndida quanto mostram os cartões postais e as fotografias que via pela internet. A estrada é íngreme, estreita, tão estreita que em alguns trechos não passa dois carros, ou um carro e um ônibus ao mesmo tempo. Por toda a Costa tem espelhos côncavos que permitem ao motorista visualizar se vem carro logo mais à frente, já que não se consegue ver a olho nu por conta de sua arquitetura. Não é recomendável para quem tem fobia de altura. Toda a Costa tem a proteção dos muros, com aproximadamente 1 metro de altura, perfeitamente seguro e apropriado para parar e tirar fotos, como centenas de turistas o fazem por toda a extensão do caminho. Porém, olhando lá embaixo, avista-se, à medida que sobe e desce mais e mais, grandes costas verdes, tal como um penhasco, o mar, as cidadezinhas, que são pontos brancos e coloridos, o fascínio da cor esmeraldina. Só que aquela sensação ardida na barriga, o arrepio que percorre toda a espinha, quando se olha enquanto o carro faz as curvas, me acompanhou durante todo o percurso.

Depois, quando a silhueta do sol se fazia mais forte o medo caía no vale do esquecimento. Ainda assim, ele, o medo, era, é, e sempre será, até que o vençamos, uma faca afiada, cuja lâmina é comprimida em nossa face, com um golpe frio.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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