Gambiarra carioca [Daniel Cariello]

Posted on 03/09/2015

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Daniel Cariello*

Vitinho passava pela rua de um bairro alto e viu dois fios com as pontas desencapadas pendendo de um poste, de onde saíam quarenta e três ligações elétricas clandestinas. Juntou as extremidades, “só pra ver dicolé”, e acabou fechando um curto circuito. A luz do poste se apagou. E a do ao lado. E a de todos da rua. Uma a uma, as casas foram se escurecendo também, assim como o posto de gasolina da esquina, o boteco do seu Armando, a pizzaria da Neuza, a farmácia dos gêmeos antipáticos (que bem mereceram, pensou), o supermercado Minipreço, o cinema no qual passava um blockbuster de Hollywood e de onde soou uma sonora vaia, o bordel da Tia Cândida, todos os estabelecimentos comerciais e residenciais da região, que ficou completamente às escuras.

O blecaute se alastrou para a vizinhança próxima. Apagou em cadeia as salas da torre de escritórios, onde o Eurípedes fazia hora extra para terminar o relatório financeiro a tempo da reunião com os investidores na manhã seguinte, o prédio da Dona Filomena, que pela primeira vez furou o dedo fazendo tricô, o sobrado em cuja cozinha Wanderley preparava boeuf bourguignon e crème brulée para sua nova pretendente e até o conjunto residencial no qual morava um deputado sabidamente corrupto que imediatamente tentou ligar para o subprefeito companheiro de falcatruas mas não conseguiu porque não havia mais rede.

O tsunami da queda de luz continuou avançando e cortou no momento mais quente o sexo virtual que a Tininha estava fazendo com seu namorado tailandês, apagou todos os sinais de trânsito e causou trinta e sete acidentes simultâneos e um engarrafamento transamazônico até bem depois da ponte, interrompeu o torneio de xadrez justo quando Harumi avançava para o xeque mate em cima de Saporu, encerrou mais cedo a entediante aula da classe noturna de direito constitucional, deixou completamente no breu as centenas de milhares de famílias que moravam perto da lagoa.

A reação em cadeia não parava e logo atingiu a baixada, desligando um milhão de tvs e casas exatamente na hora em que o atacante do Vasco ia bater um pênalti decisivo no último minuto da final contra o Flamengo, pênalti, aliás, chutado para o alto porque o Maracanã também caiu na penumbra, nesse jogo que ficou eternizado como “apagão cruzmaltino” e prolongou um jejum de trinta e dois anos sem título sobre o rubro-negro.

Com os dois fios nas mãos e ainda conectados, Vitinho espantou-se em perceber a cidade maravilhosa rapidamente se transformar em cidade sombrosa. Afastou as pontas e viu o poste piscar. Juntou-as novamente e ele tornou a perder o brilho. Calmamente, tirou o maço de cigarros do bolso e com um dos cilindros de tabaco cobriu uma das pontas desencapadas. Repetiu o procedimento na outra, isolando o curto circuito. Pegou um terceiro, tragou e saiu dali, antes que a rua clareasse novamente, lamentando apenas que a luz voltasse à farmácia dos gêmeos antipáticos.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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