Aos amigos de um só dia [Mariana Ianelli]

Posted on 29/08/2015

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Mariana Ianelli*

Um elogio aos amigos de um dia, companheiros de momento, como aquele homem e seu burrico que Cecília Meireles encontrou nos idos de 1953 pelos campos amarelos de Salamanca. Amigos que se veem uma vez só nesta vida, por uns minutos, uma hora, uma circunstância. Um elogio à velhinha que parou sobre uma ponte em Amersfoort e perdeu vinte minutos do seu dia a contar, em holandês, para um casal estrangeiro interessadíssimo (embora nada soubesse de holandês), a história da Torre de Nossa Senhora. Ao amigo que nos dá uma carona do meio de um campo de ovelhas até a estação de trem, sem o que seriam três horas a pé numa estradinha sem sinal de vida humana. A quem divide conosco o teto exíguo de um guarda-chuva numa corrida para escapar da lama. A uma senhora com brinco de pérola, jogando o jogo da memória num catamarã, que, a um sorriso nosso, nos sorri de volta. A quem, dobrando uma esquina, nos avisa de um papel caído do bolso, um bilhete importante que, afinal, para mais ninguém teria tanta importância. Ao que nos ajuda com uma bússola, um banquinho e um copo d’água às portas de algum deserto, ou mais, àquele que nem sabe que nos ajuda, caminhando à nossa frente de maneira radiosa como que fazendo valer cada passo entre dois mundos. Àquele que percebe que estamos perdidos, irremediavelmente perdidos, e, ainda assim, tenta nos explicar de novo, com outras palavras, depois com olhos, depois com mímica. Ao vizinho de assento na sala de espera, com quem de repente, telepaticamente, por um fio, aguentamos mais firmes a angústia de esperar. A quem já teve um amigo assim, de ocasião, e também já uma vez tornou-se um deles, acudindo com um minuto, um esparadrapo, um cigarro, um braço, uma palavra, uma direção certa, um deus-te-guarde. A esses amigos (quase todos sem nome), que não se esquecem, que não se deixam esquecer, um elogio.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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