Azul [Madô Martins]

Posted on 28/08/2015

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Madô Martins*

Ando muito interessada no azul. Surpreendo-me comprando roupas azuis; depois da chuva, busco avidamente o céu claro; e até a sala redecorei toda em tons da “cor que azuleja o dia”, mesmo tendo outra como preferida. Noto que, quando alguém me visita, ao mergulhar naquele fundo de piscina, se acalma, sente-se confortável e quer ficar. É também o que sinto, ao passar pelo cômodo em direção a outros: o olhar descansa, a mente relaxa.

Então, tomo consciência de que o azul me acompanha de longa data, discreto e constante, até mesmo em forma de música. Na adolescência, as canções italianas faziam muito sucesso entre nós, exibidas pela tevê em branco e preto, que tanto nos apresentava ao Festival de San Remo, desfile dos maiores intérpretes e compositores daquele país, quanto trazia alguns de seus astros para cantar ao vivo por aqui.

Assim, enquanto Rita Pavone nos encantava, espantando nossos pais com seu estilo agressivo de vestir e cantar, Domenico Modugno e outros eram o romantismo em pessoa. Rita, baixinha, ruiva, de voz estridente, cabelos curtos e usando calças com suspensório, ficou famosa com Datemi um martello, em que pedia um martelo para dar na cabeça de quem não a deixava fazer o que queria, revoltada como toda adolescente. Domenico já falava no azul, com a dançante Volare: “nel blu dipinto di blu”…

Por aqui, em épocas também remotas, de vez em quando revividas por releituras de novos cantores, havia a lindíssima Só tinha de ser com você, de Aluísio de Oliveira e Tom Jobim, que diz “me deixa morar nesse azul” e se tornou um clássico da MPB através de Os Cariocas e Elis Regina. E, algum tempo depois, Gal Costa interpretava Djavan, afirmando que “o amor é azulzinho”…

Devo ter deixado de citar muitas outras, que agora você vai ficar procurando na memória. Mas me contento com estas, tão boas de lembrar. Mesmo que o amor às vezes se torne cinza  ou plúmbeo – ah, como gosto desta palavra, me faz imaginar romanos de toga pronunciando-a – e, estando triste, às vezes pergunte: “luminosa manhã, pra que tanto azul?”.

Com licença, vou serenar a alma e recarregar as baterias na minha sala celeste…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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