Tom de sépia [Elyandria Silva]

Posted on 27/08/2015

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Elyandria Silva*

Quando o carro fez a curva naquele ponto da serra, com o céu escuro emoldurando o para-brisa, ele se lembrou das noivas da estrada, e de seus compromissos marcados, que viraram lendas urbanas. O vestido branco, com a noiva dentro, tal qual boneca de porcelana velha, colou como tatuagem irremovível na mente do motorista. Com o suor coçando-lhe a testa, em trinta anos de profissão, contava já ter visto de tudo. Nos becos infindáveis do asfalto a bondade da surpresa se travestia de medo. Um medo que ele ainda sentia, falava enquanto dirigia, toda vez que por ali passava, e que ficou gravado, na mente velha, em tom de sépia. A noiva fantasma. Outros personagens da estrada também carregavam o mesmo pavor na boleia do caminhão. Indignada e raivosa, por não ter casado, há anos materializava-se, de vestido branco, naquele trecho. Apenas de noite. Quando um caminhoneiro passava o espírito dela entrava no banco de carona do caminhão, e com ele ia por uma parte do caminho. Depois sumia.

Aterrorizados, com a moça ao lado, muitos enfartaram, mas sobreviveram para contar o que ninguém nunca acreditou. Outros não. Morreram, literalmente, de medo.

Estávamos em três no carro. Tentei mudar de assunto. Foi bem aqui, ele disse. Desandei a falar como vitrola furada, vários assuntos ao mesmo tempo. Ele continuou no mesmo assunto. Segundos depois, trocou a noiva.

O casamento iria acontecer na direção de Campos Novos e a noiva estava vindo da direção de Blumenau. Saiu da cidade de origem no início da tarde, pronta, maquiada, o cabelo arrumado, vestida de noiva. Um motorista conduzia o carro, ela atrás. O rapaz tinha a missão de levá-la para Campos Novos, onde seria o casamento. O noivo e todos os convidados a aguardavam. Não se sabia se a família dela já tinha ido. Chovia bastante naquele dia. Tinha chovido bastante no dia anterior. E tinha chovido mais ainda no dia anterior ao anterior. Em vários pontos da estrada, em Santa Catarina, tinha deslizamentos, quedas de barreira, os motoristas tinham dificuldades para passarem e os avisos para os riscos proliferavam-se em rádios e televisão. Mas para uma noiva só o que importa é casar, nada mais. Contra tudo e todos ela continuava rumo ao sonho dourado de receber o sim e a aliança que a proclamava diferente das outras mortais, solteiras, o sinal do matrimônio.

E então ele ainda tinha vívida na lembrança a imagem da noiva que não pode passar. Naquela parte do asfalto estava tudo alagado. Não teria a menor possibilidade de passar. O inacreditável. O que uma mulher nunca imagina acontecer consigo mesma. A noiva se desesperou, chorava, gritava, não tinha outro jeito, teria que voltar.

Tentando voltar foi informada que parte da estrada havia caído, lá atrás, onde ela havia passado horas antes. Estavam todos presos. Ninguém poderia seguir viagem, muito menos retornar. Estavam presos num ponto colorido do mapa. Todos olhavam a noiva, que se tornou mais atrativa que a chuva. Passou horas ali, vestida de noiva, desmoronando em cenas lentas e molhadas. Assim, durante três dias, viveram uma epopeia líquida de silêncio, espera e angústia. No restaurante em que todos comiam e se abrigavam logo acabou a comida. Dormiam e viravam-se como podiam. A noiva era uma fotografia triste que se derreteu. Um pesadelo ambulante. O oposto do conto de fadas.

E até hoje ele nunca a esqueceu. Quando chove demais ainda lembrava-se dela. E nunca entendeu porque ela viajou vestida de noiva. Nunca entendeu por que morava em uma cidade e ia casar em outra. Por que estava viajando sozinha enquanto o noivo estava longe a esperando. O bizarrismo da anedota da vida real, que ele jurava ser verdade.

Seguimos silenciosos pela estrada, tentando imaginar a agonia e o desespero da noiva quando descobriu que teria que deixar o noivo no altar porque a chuva a impediu de chegar. Tentamos pensar no que aconteceu com ela, se tinha casado, onde andaria. Se transformou-se, como a primeira noiva, num fantasma sem nome, contado de boca em boca.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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