Amor felino [Cyro de Mattos]

Posted on 25/08/2015

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Cyro de Mattos*

O maior espetáculo da terra. Pandora, a mulher tigre. Cinco feras a seus pés como grandes bichanos domésticos. Inacreditável. Só ela consegue fazer isso. Não há qualquer sinal de perigo. Bichinhos bonzinhos, obedientes. Um salta para seus braços. Outro lambe suas pernas. Beija o terceiro na cabeça. Coloca o rosto bem perto da bocarra do quarto, presas afiadas. Rola com todos eles pelo chão.

O quinto é albino, de todos o mais inquieto. Criado com leite na mamadeira em pequeno. Como os demais. Igual a um filho de colo. Todo o desvelo. E mais e mais carinho para o seu bicho de estimação. Montado nele, os outros atrás em fila indiana. Encerra-se o espetáculo na ovação sem igual. Estrondosos aplausos.

A vida resumida neles.

Nada era melhor.

“ Meus meninos, venham brincar com a mamãe. “

Sorridente. Como brinquedos na jaula. Nem o albino assustava, quebrava a submissão dos outros quando rugia. Aterrorizava ao redor

“ Por que será que meu menino está zangado? Ande, venha comer carne fresca.”

Cantarolava. Apaziguava.

O tratador faltou um dia. Foi alimentá-los. Entrou no cercado de cada um deles. Um pouco trêmula. No último tropeçou nos ferros, caindo. Fez barulho na queda. O albino impeliu-se no pulo ligeiro. Abocanhou sua cabeça. Foi lançada de encontro à grade de ferro no cercado.

Salva pelo marido, de repente. Atirou no bicho, sem pestanejar.

Trinta dias no coma. Acordou. Viu apenas os quatro ali mesmo. Esfumados diante dela na cama. Faltava o albino.

“Como está ele? Por que não veio me visitar?”

Teve que ser sacrificado, o marido disse.

Chorou muito. Perdia um filho muito querido.

Sempre lembrado. Sem o albino, o espetáculo perdia aquele brilho.

Triste. Muito triste. Nem dava mais prazer fazer o número.

Com seus felinos queridos, o albino sempre lembrado.

Um dia, resolveu vender os quatro felinos, contrariando o marido.

Quando o marido morreu, já velha foi morar no albergue de velhos.

Na cadeira de balanço ficava agora dizendo:

“Traga meus meninos, quero ver meus filhos queridos.”

Repetindo, repetindo.

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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