Marcelo Moutinho e a cidade que se vai

Posted on 18/08/2015

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Nos recantos do Rio de Janeiro, entre livros, samba e cerveja, viceja uma cidade que costuma escapar à vista. É verdade que, aos poucos, essa cidade se vai, deixando como resquícios bares que encerram universos inteiros, mas, nas crônicas de Marcelo Moutinho, ela ainda vive em todo o seu esplendor. “Na dobra do dia” (Rocco) é, afinal, o testemunho do cronista diante da passagem do tempo em sua cidade. A boemia carioca, o carnaval, os samba-enredos que são parte da alma da cidade, os subúrbios, a Lapa, essa rainha decadente que só se dá a ver a quem vive nela, tudo isso é objeto não apenas da atenção, mas da exaltação do cronista.

À medida que passa pelas ruas do Rio de Janeiro, interessando-se pelos nomes, pelos tipos e pelas histórias que carregam, Moutinho sente também sobre si o peso do tempo. Toda vez que vai ao subúrbio, por exemplo, a infância lhe dói. Lembra-se do dia de Cosme e Damião em Madureira, lembra-se da trilha sonora que o pai colocava nas viagens Barra/Madureira. Hoje o pai não está mais ali para lhe proteger das freadas da vida, hoje as casas de sua infância já não dizem nada às novas gerações de sua família. Tudo se esfarela até virar grão, imperceptível.

Não estranha, pois, que haja um acento melancólico naquilo que escreve. Há experiências líricas intensas, como a crônica-título, “Casa Vazia”, “Hotel com garagem” e “O homem na areia”. Em seus incidentes domésticos, Moutinho apresenta a gata Mila. Também fala sobre o amor – e a amizade, uma de suas formas. Reverencia seus mestres, como Paulo Mendes Campos e João do Rio, escritores com quem descobriu que há mais pessoas tateando sentidos, perplexas com o abismo que, dia após dia, envolve a vida – esse samba desconjuntado.

nadobraNa dobra do dia – Marcelo Moutinho

Rocco, 2015, 232 p., R$ 34,50

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