So far away [Daniel Cariello]

Posted on 13/08/2015

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Daniel Cariello*

– Fernando Lappin, bom dia.
– Queria falar com o Diogo.
– Sou eu mesmo.
– Você não é o Fernando?
– Não, sou o Diogo, trabalho na Fernando Lappin, o prazer em sentar.
– Liguei pra falar de um sofá.
– Pois ligou certo, senhor. Aqui na Fernando Lappin temos sofás exclusivos, desenhados pelo Fernando Lappin em pessoa.
– Tudo o que sai daí é de autoria dele?
– É, sim. Fernando Lappin é um designer renomado e reconhecido no mundo inteiro. Seus móveis já ganharam prêmios em Milão, Paris, Berlim, Veneza…
– Pois eu acabei de receber um sofá que comprei aí e gostaria de falar com esse Francisco Latão.
– Lappin. Fernando Lappin, com dois pês.
– Isso eu também tenho.
– Dois pês?
– Você não disse “dois pés”?
– Não, dois pês, em Lappin, família francesa com traços italianos.
– Ah, ok. Ele está?
– Não, senhor. O senhor gostaria de parabenizá-lo pela criação e dizer que está muito satisfeito com a compra?
– Na verdade, tô mandando o sofá de volta.
– De volta?
– O que chegou pra mim é diferente do que comprei. Pedi um de 3 lugares, com corpo cinza e braço azul.
– Só um momento. Deixa eu abrir seu pedido. Confere: modelo Plutão, com corpo Neblina e braço Beyond.
– Não tem nada dessa viagem sideral. É cinza com azul.
– Para a Fernando Lappin, o prazer em sentar, o seu sofá é o modelo Plutão, com corpo Neblina e braço Beyond. Aqui somos inovadores em tudo, até nos nomes.
– Inovaram também no meu pedido. Veio um cinza com braço roxo.
– Confere. Está anotado na sua ficha. O senhor Fernando Lappin substituiu o braço Beyond pelo Joy, sem nenhum custo adicional.
– Joy?
– Roxo, se o senhor preferir.
– Não acredito…
– Isso não é maravilhoso? Customizado pelo próprio Fernando Lappin. E de graça!
– Por que esse sujeito trocou as cores do meu sofá?
– Você não está entendendo. Fernando Lappin não sai por aí trocando nada. Ele viu sua escolha, terrivelmente equivocada, aqui entre nós, e ENCONTROU as cores corretas para a peça.
– Ele que vá encontrar sua turma. Quero meu sofá cinza com braço azul.
– Impossível, senhor. O modelo Plutão não suporta essa configuração, Fernando Lappin não permite.
– Pois eu vou me permitir arrancar meia orelha desse cidadão se ele não me entregar o que vendeu.
– O que pode ser feito, em caráter totalmente excepcional, uma verdadeira graça concedida por Fernando Lappin, é customizar o modelo Vênus nas cores Neblina e Beyond, como o senhor deseja.
– Vênus?
– Uma peça experimental de Fernando Lappin, com coussins déchirès posicionados sobre uma estrutura de madeira seca. Lindo! Bruto! Selvagem!
– Diz aí pra esse dois pês que não quero saber desse modelo Vênus. Nem mais do Plutão. Agora eu quero é que ele e suas criações sejam extraditados para beyond do Sistema Solar. A gente se vê na justiça.
– O senhor é um sem classe! Não merece um Fernando Lappin, o prazer em sentar.
– Não mereço Lappin nenhum. Mas, que já sentei, isso já…

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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